O julgamento de Daniel Tomasi Bauer, acusado de executar a esposa Gisele Monteiro Bauer em 27 de maio de 2015 e que está preso pelo crime desde novembro do mesmo ano, iniciou às 10 horas da manhã de ontem quinta-feira, dia 29, no Tribunal do Júri da Comarca de Araranguá, presidido pelo juiz Guilherme Mattei Borsoi. A sala estava lotada e de um lado a família da vítima e de outro, a do réu, separados por estudantes de direito.

As primeiras cinco pessoas a prestarem depoimento foram as testemunhas da acusação, uma vizinha do casal, a mãe da vítima, um amigo do casal e dois policiais, um civil e um militar.

Durante o depoimento da vizinha, ela relatou ter ouvido cerca de três disparos de arma de fogo, um grito apavorado de mulher e em seguida uma sequência de tiros, acionando imediatamente a Polícia Militar. A mãe de Gisele contou que viu na filha, por mais de uma vez, manchas roxas, espalhadas pelo corpo. Segundo ela, o relacionamento da filha com Daniel não era bom. A terceira testemunha, avaliou de outra forma o relacionamento do casal. Conforme o amigo de Daniel e Gisele, eles mantinham um bom relacionamento. Já os policiais, civil e militar, falaram sobre o que encontraram na cena do crime. Ambos relataram que Daniel contou à eles, que estava no forro da casa quando ouviu Gisele falar com alguém, pensando que era com um dos cães e em seguida os disparos de arma de fogo. Falou também ter visto dois homens dentro da casa. Daniel disse aos policiais que acreditava ter atingido um dos assaltantes e que ele fugiu em direção a uma plantação de maracujá, na propriedade do casal.

Os policiais afirmaram que foram efetuadas buscas e que, apesar do chão estar bastante úmido, não foram encontradas pegadas na direção apontada por Daniel, como sendo a que o invasor ferido fugiu. Também durante os trabalhos naquela noite de 27 de maio de 2015, nenhuma cápsula deflagrada de pistola foi localizada próximo ao corpo da vítima ou em outro local da propriedade. Foram encontradas e apreendidas apenas 4 munições deflagradas de espingarda calibre .12.

As cinco testemunhas da defesa prestaram depoimento na parte da tarde. Uma vizinha, uma amiga e dois vizinhos do casal, além de um homem que não conhecia a vítima e nem o réu. Esta testemunha contou que estava preso na delegacia de Araranguá, após ter matado um homem em Maracajá, e lá ouviu dois presos, que estavam em uma cela vizinha, os quais estavam preocupados com um assassinato de uma mulher, que aconteceu em Sanga da Toca, numa propriedade, onde plantavam maracujá. Eles queriam saber se alguém havia sido preso pelo crime. A testemunha não soube precisar a identidade dos vizinhos de cela, disse que eram do Rio Grande do Sul e que eram.

Uma amiga do casal, em seu depoimento, disse que o relacionamento de Daniel e Gisele era bom e que Gisele praticava muay thay e por isso tinha manchas roxas espalhadas pelo corpo, devido ao esporte e por ser muito sensível.

Já um dos vizinhos contou que ouviu os tiros e que correu em direção a residência onde ocorreu o crime, que foi o primeiro a chegar, encontrando Gisele ainda viva e agonizando e Daniel fora da casa, com uma espingarda, efetuando disparos. O outro vizinho contou que viu dois homens saindo da propriedade do casal e em seguida presenciou Daniel correndo em direção a dupla, efetuando disparos de espingarda.

Após um período de recesso para o café, por volta de 18 horas, aconteceu a leitura do depoimento de testemunhas, que não puderam comparecer na sessão do Tribunal do Júri, bem como a exibição de algumas provas, entre elas, laudo do médico perito do Instituto Médico Legal (IML) de Araranguá. Segundo laudo do IML, as evidências encontradas no corpo da vítima não condizem com crime de latrocínio e sim de tentativa de homicídio, por trauma abdominal, seguida de homicídio, por disparo de arma de fogo. Conforme o laudo, Gisele possuía dois ferimentos nas mãos provocados por faca e feitos uma hora antes do assassinato, além de ter sofrido agressões como chutes e socos, também horas antes da morte. O laudo apontou que um dos tiros que ela recebeu foi pela frente e no peito, vários pelas costas e a queima roupa, sendo que ela estava em pé quando alvejada e um na cabeça, após estar no chão.

Após, juiz, jurados, advogado do réu e promotor foram até a casa de Daniel e Gisele, na Sanga da Toca I, onde ocorreu o crime, para os jurados conhecerem o local. Eles foram escoltados pela Polícia Militar.

O interrogatório do réu iniciou às 21h08min e ele negou ter matado Gisele. Contou o que fez durante o dia, até por volta de 18h30min, quando estava com a esposa em uma loja do Centro de Araranguá. Segundo depoimento, ele e a vítima chegaram em casa por volta de 18h45min e ele presenciou um clarão em cima do forro e acreditou que havia algo errado com a fiação. Na residência estava apenas o casal e Daniel disse que foi para o forro verificar a fiação e pediu para a esposa ir até a frente da casa desligar a energia no disjuntor. Ainda no forro, ouviu barulhos de dois homens dentro da casa, em seguida ouviu Gisele falando "o que é isto, o que é isto? Sai!" e logo após ouviu três ou quatro tiros. Depois o réu disse que ouviu vários disparos e as vozes masculinas conversando entre si. Daniel disse que além dos dois invasores que estavam dentro da casa, acredita que havia mais um homem do lado de fora. Ao descer do forro saiu atrás dos criminosos, primeiro efetuou disparos com uma pistola 380 e após com uma espingarda calibre .12, ambas as armas de sua propriedade e que foram entregues à polícia.

Ainda segundo o réu, ele só avistou a esposa caída no chão do pátio da residência, após pegar a espingarda e quando foi de encontro dela, a esposa já estava mole. O réu, bastante emocionado e chorando, disse que foi até próximo a casa dos pais e gritou para a mãe chamar a polícia, ele disse que a mãe também gritou. Voltou até Gisele, momento em que o primeiro vizinho chegou. De acordo com o réu, foi subtraído R$ 35 mil em dinheiro de sua casa.

Daniel disse que não ouviu a vítima gritar e contestou o laudo do perito do IML, além de afirmar que não agrediu a esposa. O réu confirmou para o promotor de justiça, Gabriel Ricardo Zanon Meyer a versão da reconstituição do crime, de que acredita ter acertado um tiro em um dos invasores. Daniel também falou do seguro de vida de Gisele em seu nome e disse que ele foi feito devido a um financiamento com um banco e que o beneficiário era o banco. O promotor ainda questionou o réu sobre outras provas dos autos.

O advogado do réu, Vicente Machado, também o interrogou e, entre os questionamentos, perguntou sobre as aulas de muay thay da esposa e se Gisele era uma boa mãe para o filho dele. Conforme Daniel, a esposa era uma boa madrasta e cuidava do enteado como se fosse filho dela.

A sessão de quinta- feira foi encerrada às 22h16min e retorna nesta sexta-feira às 8h30min, onde acontecerá os debates e o pronunciamento final.

Fonte: Diogo CCR