Quantas vezes você tem perguntas sem respostas? Quantas vezes a vida dá reviravoltas e muda tudo? Quantas vezes você já chorou escondido? Por quantas vezes já perguntou a Deus "por que comigo"? Estas não são perguntas fáceis de responder. Passar por uma situação adversa e dar a volta por cima não é fácil. Encontrar na dor forças para sorrir é um exercício de muita fé e Cleusa Monteiro Hahn é uma mulher guerreira, que tem muito o que ensinar sobre perseverança.

Ela descobriu que estava com câncer no canal do colo do útero por acaso, fazendo um preventivo de rotina que faz todos os anos. "O resultado era que estava com cândida, algo que o médico disse ser normal, mas que quando ouvi me senti estranha. Eu não sentia dor, não tinha corrimento, nada. Fiz o preventivo novamente e deu que eu tinha atipia escamosa. Fui chamada e encaminhada com urgência para o ginecologista, porque estava com câncer. Entrei em pânico, fui no mesmo dia, mas meu médico disse pra eu não me assustar, porque poderia vir a ser um câncer, mas não era. Disse que eu faria um tratamento a cada três meses. Isso foi em 2013. A cada três meses ia ao médico, ele fazia o exame no colo do útero e mandava para a biópsia. Ele disse que eu precisava só tomar Fluconazol, que é um remédio para cândida. Neste tempo eu continuei apavorada, chorava o dia todo, estava com muito medo", relata.

Na segunda vez que Cleusa fez o exame, foi solicitado uma Colposcopia. "O médico disse que não precisava fazer, que eu ia gastar muito. Três meses depois foi solicitado novamente e com urgência, mas ele continuou dizendo que não precisava fazer. Meu médico era particular e eu confiava muito nele, era meu ginecologista há anos, fez os partos dos meus filhos. Mas eu fui ficando cada vez pior, comecei a ter hemorragias. Em janeiro de 2014 fui ao médico para fazer o exame novamente, estava ainda tendo hemorragia, infecções de urina com frequência e nada combatia, meu marido começou a insistir com o médico que havia alguma coisa errada e ele continuava dizendo que não era nada", afirma.

As hemorragias começaram a ficar mais fortes com o passar do tempo e Cleusa não conseguia mais fazer esforço. "Se eu ia fechar uma janela, ficava uma poça de sangue. Fiquei internada, fiz todos os tipos de exames e não achavam nada. Fui ao médico ver se não era infecção nos rins, ele pediu uma tomografia e descobri que eu era alérgica ao contraste da tomografia e quase morri. No exame não deu nada, continuei internada. Em fevereiro de 2014, meu médico decidiu me operar. Ele disse que como eu já tinha feito a laqueadura, era pra retirar útero, ovário, mas ele queria cobrar e eu não tinha dinheiro. Nesta época eu já não confiava em ninguém. Fui procurar os médicos do SUS, fui em cinco ginecologistas, levei todos os exames e os cinco falaram a mesma coisa, que meu caso não era ginecológico, que já era para eu estar no Unacon (Unidade de Alta Complexidade em Oncologia) desde o início do primeiro preventivo e que eu estava com câncer, mas não sabiam que tipo era. Eu não sabia o que era câncer, que tinha tratamento, só sabia que a pessoa que tinha câncer morria. Fiquei em pânico novamente, estava desesperada. Precisava confiar em alguém que dissesse que eu tinha chance de viver. Na última médica que fui é a que estou até hoje. Olhando meus exames ela disse que não sabia como eu estava viva, minha hemorragia já estava muito forte. Já estávamos em agosto", conta.

A médica então, solicitou a Colposcopia e quando jogaram o ácido, Cleusa não sentiu nada. "Geralmente dói e ela não conseguiu ver nada. Jogou o ácido novamente e viu o tumor, ele já estava grande e nisso deu hemorragia. Fiz no Bom Pastor esse exame. Ela me mandou fazer uma biópsia em cone (Neste procedimento, também conhecido como conização, o médico remove uma amostra de tecido do colo do útero em forma de cone. A biópsia em cone pode também ser utilizada como tratamento para remover completamente muitas lesões pré-cancerosas e alguns cânceres incipientes) ou eu não resistiria. Isto foi numa quinta-feira, nesse dia eu perdi as esperanças. Porque eu entraria na fila do Hospital Regional para fazer este procedimento, fiquei com medo que demorasse, fiquei com medo de morrer. Rezei muito a Deus. Minha mãe conseguiu o dinheiro na segunda-feira e na mesma semana fui operada. Isto era setembro de 2014. Três dias depois veio o resultado e ela já me encaminhou para o Unacon em Criciúma. Em novembro me chamaram e comecei os exames do zero. A minha alergia complicou um pouco, porque eu não podia fazer tomografia, ressonância tinha que ser com outro contraste, mas consegui", conta.

Operação e mudança de vida

Dia 31 de março de 2015 Cleusa foi operada para a retirada do tumor. "Quando foi tirado a cone, estava com um pouco mais de quatro centímetros, quando fui retirar na cirurgia, ele já tinha aumentado. O câncer pegou toda a parte da minha vagina e o colo do útero. O câncer era adenocarcinoma malígno e invasivo. Ao fazer o exame lá no começo, o meu ginecologista não poderia ter mexido e acabou estourando o tumor. Ele vazou para os linfonodos, as ínguas, que vai para o sangue. Na cirurgia esvaziaram os meus linfonodos e acabei ficando com sequelas nas pernas. Não posso mais fazer esforço, as veias não tem mais o filtro do sangue. Por isso, fico inchada e dói muito. Desde a cirurgia sinto dor nas pernas e isso não tem reversão, não tenho o que fazer. Preciso drenar as veias e desentupir, para não dar outras complicações como trombose. Depois da cirurgia fiz quimioterapia, radioterapia e braquiterapia. Tudo sem anestesia, porque não podia. Braquiterapia foi a pior parte de todo tratamento. Tive que fazer três sessões e foi muito dolorido. Em 2015 fiz estes tratamentos, meu cabelo caiu bastante, mas não fiquei careca. Passei por tudo isso, não foi fácil, ainda faço tratamento a cada três meses na ginecologista e na oncologista. O médico teve que reconstruir a entrada do meu canal, por isso, uso uma prótese para abrir o canal, porque se fechar eu não consigo nem urinar e dói muito. Uso anestésicos para me ajudar. Meu marido esteve comigo em todos os momentos, tenho dois filhos, um de 18 e um de 14. Minha família me apoiou e estão me dando força até hoje", salienta.

Sinônimo de força

Quem conversa com Cleusa nem imagina que ela passou por tudo isso. Sorridente e descontraída, ela não demonstra estar nesta luta. "Não me permito cair, ou desanimar. Fiquei fraca, enjoada, com sequelas, engordei, passo bastante trabalho, tenho alergia a antibióticos, as coisas não são fáceis. Mas quem conversa comigo não percebe o que sinto. Tento ser positiva sempre. Fiquei muito limitada e não sei de onde tiro força. Me apego muito a Deus, a nossa Senhora, porque com 38 anos não poder mais ficar em um show, ir a um baile, trabalhar, usar salto, limpar a casa, ir a academia que eu fazia sempre, caminhada, andar de bicicleta, é muita coisa que eu não consigo mais fazer. Isso mexeu muito comigo e é muito difícil. Meus planos e sonhos mudaram, mesmo assim você não vai me ver triste. Qualquer pessoa que me conhece, não me vê desanimada, porque acredito em Deus, quero estar perto da minha família. Estamos passando bastante dificuldades, sei que tem pessoas em situações muito piores, mas só quem passa sabe o que é. Eu choro muito em casa, sou bem revoltada com tudo isso, mas ninguém vê. Muita gente nem acredita que eu passei por tudo isso, porque eu nem falo. Quando converso com as pessoas, sorrio e falo sobre coisas positivas. Quero viver e não vou desistir", relata.

Quem tiver interesse em colaborar com o casal, pode entrar em contato pelo fone 9 96895029.