O que moscas e abelhas têm em comum? Tirando o fato de que são insetos voadores, não há nada que ligue umas às outras, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, que assim como as moscas, consideram as abelhas sujas, perigosas e passíveis de extermínio.

Na semana passada, o pânico assombrou os comerciantes e transeuntes da Getúlio Vargas, no centro de Araranguá, quando perceberam que uma colmeia se instalou numa das árvores do Calçadão. O Corpo de Bombeiros foi acionado, a área foi isolada e um apicultor foi chamado para retirar a colmeia de abelhas africanizadas: “Este é o procedimento correto, porque apesar de não ser agressivas, alguém poderia mexer com elas, e aí, sim, haveria uma reação”, explica Gladsthone da Silva, o Toni do Mel, que há 30 anos trabalha com apicultura. Para ele, a ignorância sobre a grande importância das abelhas vem extinguindo a espécie: “Se matarem as abelhas, o homem não sobrevive na Terra por mais 15 anos”, afirma Toni, que diz que estudos comprovam que o uso indiscriminado de agrotóxicos – sobretudo os espalhados por aviões – e a falta de conhecimento sobre este importante inseto polinizador vêm acabando com as colmeias gradativamente: “Eu, há dois anos, tinha 1,2 mil colmeias, e hoje são 700. Não consigo recuperar, porque as abelhas estão se extinguindo”.

Abelhas no Calçadão pararam o trânsito na sexta-feira, 01
Toni do Mel diz que as abelhas são 100% organizadas e solidárias

Lições para a humanidade

Há muito sobre as abelhas que a humanidade precisa conhecer. A própria organização da colmeia, onde a hierarquia é natural, é um bom exemplo: “Uma abelha rainha vive em média cinco anos, mas a cada safra, a rainha deixa a colmeia com algumas operárias e reabre uma nova colônia, dando espaço para a nova rainha”, explica Toni, que diz que outro mito sem fundamento é o argumento de que as abelhas são sujas como as moscas: “A cada vez que elas entram na colmeia, se esterilizam com a própolis, que também é usada para vedar o local onde vivem”. A disposição para trabalhar em conjunto, pelo bem de todos, também é um forte das abelhas: além de colherem o pólen – que guardam nas patas traseiras – e de fertilizarem a maioria das frutíferas – como maçã, laranja, pêssego, pêra e muitas outras, o forte senso de coletividade é um forte da vida das abelhas. Um bom exemplo é quando a operária solta o ferrão contra alguém para defender a colmeia: “O ferrão é ligado ao intestino da abelha, e quando ela pica, sobrevive no máximo 24 horas”.

Sobre a colmeia que foi vista no Calçadão, ele diz que as abelhas estavam migrando, e pararam na árvore para descansar e seguir viagem, e explica que a invasão do homem sobre a mata é o que vem fazendo as colmeias migrarem para a área urbana. Para ele, o ser humano precisa agir com mais respeito com as abelhas e pela natureza: “As abelhas estão se extinguindo, e a vida na Terra está ameaçada. Para as grandes empresas, o mais importante é ganhar dinheiro, ocupar os espaços, construir. É preciso ver isso com mais preocupação”, finalizou.

Organizadas, solidárias, defensivas: abelhas como inspiração de vida em sociedade