Caminhar pela orla do Morro dos Conventos reserva experiências incríveis, um cenário natural exuberante e uma rica diversidade ambiental que contrasta com uma realidade desoladora. Não é difícil tropeçar em um animal marinho morto ao transitar pelos quase 60 km de extensão de orla marítima do Extremo-Sul Catarinense (de Araranguá à Passo de Torres). Esta verdadeira chacina de espécies ameaçadas de extinção, que aparecem mortas ou perdem a vida em nossa extensa costa litorânea tem chamado a atenção de moradores, voluntários e ativistas ambientais.

Um destes casos mobilizou um morador de Araranguá e ganhou repercussão nas redes sociais. Preocupado com um Leão Marinho, que chegou debilitado à orla do Balneário Morro dos Conventos, o esportista e proprietário do Beco das Dunas, Carlito do Canto Bitencourt, recorreu à internet para chamar a atenção para um assunto que raramente ganha importância nos debates políticos. A urgente necessidade de um centro de reabilitação para animais silvestres e marinhos no Vale do Araranguá.

De acordo com especialistas, estes animais aquáticos todos os anos, percorrem o litoral do Brasil, entre março a outubro, em busca de água quente para manter a temperatura do corpo e para se reproduzir. São pinguins, leões marinhos e até baleias, que ao entrar em território catarinense, nadam exatamente 58,76 Km de extensão, de Passo de Torres ao Morro dos Conventos, em mar aberto, sem um local para que possam recuperar as energias e voltar com vida para casa.

Cansados, muitos deles descansam à beira da praia, mas não resistem e morrem sem receber os cuidados necessários. Carlito, que utiliza o tempo livre para pescar na barra do Rio Araranguá já perdeu as contas de quantos resgates realizou. Segundo ele, é corriqueiro o número de animais marinhos que acabam morrendo na costa do Morro dos Conventos.

“E quando encontramos um animal ferido, a gente só lamenta, pois não tem para onde levar,” disse Carlito. O leão marinho encontrado por ele na beira da praia, dias depois, teve o mesmo destino das centenas de pinguins e aves que por ali, todos os dias passam: a morte. “O destino deste leão marinho poderia ser diferente, caso aqui no Morro (dos Conventos) tivesse um Centro de Reabilitação para animais silvestres e marinhos,” pontuou o comerciante.

Reabilitação aos animais, fomento ao turismo da Cidade das Avenidas

Recuperar estes animais é o principal objetivo de um Centro de Reabilitação. Mas muito além de fazer o bem á estes seres marinhos, o Centro também poderia alavancar uma área com muito potencial na região, no entanto, pouco explorada: o turismo.

“Uma praia tão bonita é uma pena não ter suporte aos animais que passam pela nossa costa. E, além disso, com certeza o turismo seria beneficiado, pois muitas pessoas iriam querer visitar a praia, só para ver estes animais,” acredita Carlito.

As deficiências da Polícia Ambiental

Ao encontrar um animal marinho, à beira da praia com sinais de fragilidade ou ferimentos, a recomendação é ligar para a Polícia Militar Ambiental. Acontece que até mesmo o contato telefônico com o órgão responsável por fiscalizar ações de agressão ao meio ambiente é difícil. Não há um número de emergência e o número do telefone corporativo não é encontrado sequer na rede mundial de computadores, a internet.

Além deste empecilho, a Polícia Ambiental enfrenta outro problema: a falta de efetivo. Nove soldados são encarregados de atender 22 municípios, que compreendem a faixa litorânea de Passo de Torres à Balneário Esplanada.

Apesar dos problemas estruturais, a Polícia Ambiental afirma que faz o que está ao seu alcance. Conforme o subtenente da Polícia Ambiental de Maracajá, Nei Edson Kruger, sempre que chega uma denúncia de animais marinhos feridos na orla, imediatamente a PMA desloca uma viatura para averiguar a situação.

“Nossa orla é muito extensa e o Centro de Tratamento mais próximo é em Florianópolis. Muitas vezes já deslocamos animais, seja silvestre ou marinho, até a capital. Conseguimos salvar muitos, mas muitas vezes, quando chegamos ao local da ocorrência, estes animais já estão mortos, ou mesmo já voltaram ao mar. Dependendo do caso pedimos auxilio também às universidades. Sempre fazemos o que está ao nosso alcance.” explicou o subtenente.

Perguntado sobre a importância de ter um Centro de Reabilitação no Morro dos Conventos, já que o mais próximo é em Florianópolis, ele foi enfático. “Seria adequado um Centro de Reabilitação, pois se conseguiria atender municípios do Rincão a Passo de Torres de forma adequada,” pontuou.

FAMA se posiciona em favor de um estudo de viabilidade

A reportagem da W3 também entrou em contato com a Fundação Ambiental do Município de Araranguá – FAMA. De acordo com a superintendente, Karine Neves, a necessidade de um Centro de Reabilitação para a região precisa ser averiguada por meio de um estudo. “Se for uma demanda para a região, é necessário. Mas isso precisa de um estudo de viabilidade, se há necessidade, como será feito, quais são os técnicos, para no futuro este Centro de Reabilitação não vier a fechar. Pois este Centro precisa de uma estrutura para atender a demanda,” disse Karine.

Ela inteirou que os técnicos da FAMA não possuem treinamento para resgatar animais silvestres, ou marinhos. “Mas o que fazemos é dar suporte, intermediar o atendimento,” explicou. Karine ainda afirmou que a FAMA é parceira se e coloca à disposição para discutir o assunto. No entanto, enquanto os anos passam e nenhuma solução é adotada, os animais marinhos, como o citado no começo deste texto, vão aos poucos desaparecendo, como se nunca tivessem existido.

FELIPE BALTHAZAR // ARARANGUÁ

Fotos: David Cardoso / Reprodução