Mais um dia se passa para dona Ivoniria Freitas Gonçalves Feyh, 76 anos, que deitada sobre a cama, aguarda a notícia de quando será marcado o exame pelo SUS. Há 18 anos ela lida com o mau de Parkinson e com a idade avançada, faltam-lhe forças para andar pelos cômodos da casa, localizada no bairro Coloninha. O que lhe resta é ficar acamada boa parte do dia, aos cuidados da neta.

Aliado à tudo isso, um sangramento vaginal, que ocorreu no fim do ano passado, vem preocupando os familiares. A saída para descobrir a raiz do problema, que poderia estar afetando a saúde da idosa, foi marcar uma consulta com médico ginecologista.

A filha da idosa, Cátia Karine Feyh de Souza, explicou que para averiguar a causa do sangramento, a ginecologista do Hospital Regional pediu alguns exames, que não são contemplados pelo SUS e realizados fora do Estado de Santa Catarina. “Devido à estas dificuldades, ela pediu uma curetagem,” relatou Cátia.

Mas mesmo sendo de urgência, a curetagem foi feita apenas seis meses depois, no dia 24 de junho. “No dia 31 de agosto foi pego o resultado da biopsia. A ginecologista avaliou e deu o prognóstico de não haver células malignas,” ressaltou.

A recomendação da especialista foi de que a cada seis meses fosse feito uma ultrassonografia transvaginal, para acompanhar a causa do sangramento. Foi neste momento que o drama da aposentada começou.

Fila de espera ou fila da morte?

A chamada fila de espera para exames de média e alta complexidade é uma verdadeira angústia para os pacientes do Sistema Único de Saúde. Em posse da requisição preenchida pela ginecologista, Cátia foi até a secretaria de Saúde marcar o exame da mãe. Mas para a surpresa dela, a espera por um simples ultrassom pode chegar há um ano.

“Como vamos fazer o acompanhamento a cada seis meses, se a fila de espera é de um ano? E para piorar os sangramentos continuam,” informou em tom de preocupação.

Secretária de Saúde de Araranguá tece críticas ao Estado

A secretária de Saúde de Araranguá, Rosane Kochhann, explicou que o município tem uma pactuação com o Estado em relação à procedimentos de média e alta complexidade, sendo o serviço alocado no Hospital Regional de Araranguá e a solicitação do exame feita pelo Sisreg, via secretaria “mas quem regula e autoriza é o estado de Santa Catarina, por meio do Controle e Avaliação, de acordo com as vagas disponibilizadas pelo hospital,” detalhou.

Ela teceu críticas à regulação do Estado, apontando falhas que vão desde os médicos, que não preenchem corretamente as requisições, à ineficiente ferramenta adotada pelo Estado, que segundo Rosane, comprometem um andamento mais dinâmico da fila. “Nós temos requisições mal preenchidas, de acordo com a necessidade do paciente. Pacientes que faltam a procedimentos agendados. São problemas apontados pela própria coordenação da regulação do Estado,” afirmou.

Rosane explicou ainda que existe mais de três mil pessoas à espera de ultrassonografia no Hospital Regional. A solicitação é tão grande, que há alguns anos o município passou a pagar exames, realizados por um profissional no próprio Bom Pastor. “A fila é grande, mas ao mesmo tempo ela não é correta, por causa da ineficiência da regulação. E nesse sentido o Estado deixa a desejar,” inteirou.

SPDM emite nota; Estado se cala

A Assessoria de Imprensa da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina – SPDM, informou por meio de nota, que cumpre contrato pactuado com o Estado, no qual dispõe de 400 exames mensais “Essa cota é totalmente preenchida pelos pacientes da região,” apontou a instituição.

No entanto, a nota da SPDM não comentou sobre o porquê da fila de espera ser de aproximadamente um ano. A reportagem também entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde. Até o fechamento desta edição, o Jornal não recebeu um posicionamento.

Reportagem: Felipe Balthazar

Fotos: David Cardoso