A simpatia e atenção da monitora do rotativo de Araranguá, Ianca Rodrigues Batista Pereira, não condizem com a reação violenta do empresário que a agrediu há uma semana. O caso dela comoveu toda a região e rendeu mais de 60 mil visualizações ao Portal W3, mais de 200 comentários e quase 500 curtidas.

Os números da comoção não poderiam ser diferentes. A situação ao qual o empresário colocou a funcionária do rotativo é de uma covardia inexplicável. Uma semana depois do ocorrido, a redação da Revista W3 recebeu a vítima de mais um caso de agressão contra a mulher, para saber um pouco mais da vida e das sequelas que o fatídico dia 30 de julho causou à ela.

Uma vida simples

Nascida no hospital Regional de Araranguá, a meiga Ianca, personagem do triste registro de violência, cresceu e reside ainda hoje no bairro Urussanguinha. De família modesta, ela recebeu aprendizados importantes de sua família, como a educação perante o próximo.

Casada e mãe de Carlos, de três anos, ela viu na Sermog a chance de entrar no mercado de trabalho. Com 19 anos de idade, trabalha no rotativo desde o dia cinco de março, período que já considera de grande aprendizado. “Foi meu primeiro emprego, minha primeira oportunidade, no qual eu estava gostando muito, e agora aconteceu isso, o que me deixou traumatizada,” revelou a jovem.

Um dia fatídico

Entre acordar, bater o cartão de trabalho e exercer a função de monitora do rotativo, Ianca percorria mais um dia comum. Olhar se os carros estavam com o cartão do estacionamento e advertir aqueles que não o tinham, era a rotina.

No entanto, por volta das 14h daquele dia, a história de vida de Ianca passou por uma drástica mudança. Um empresário impaciente, não quis saber das explicações da monitora sobre a advertência, e desferiu um soco contra o rosto da trabalhadora. “Meu dia estava ótimo. Sempre atendi com educação, sorrindo, brincando e nunca havia recebido uma agressão,” relembrou o ocorrido.

“Eu cheguei perto do carro e estava sem o cartão e não tinha ninguém, inclusive tinha o ponto de venda ao lado. Preenchi a notificação e estava indo atender outra pessoa, quando fui chamada. Expliquei à ele que era um aviso, que ali era rotativo e que a multa é de R$ 10,00, pagando ganha cinco cartões. Ele não quis muita explicação, amassou a notificação e me deu o soco,” relembrou com ar de tristeza.

O trauma resultou em choque e muito nervosismo. Ela conta que o inchaço no rosto ficou por três dias. “Nunca apanhei nem do meu pai, minha mãe ou marido, foi à primeira vez.”

Trauma

Horas depois da agressão a amarelinha já estava novamente nas ruas, exercendo sua digna profissão. Mas o trauma ainda persegue a jovem. “Eu fiquei bem traumatizada, parecia que as pessoas que vinham em minha direção também iriam me bater. Isso ainda está forte na minha cabeça, mas não adianta, pois temos que continuar e trabalhar para gerar o sustento da família,” lamentou.

Medidas legais

Ianca revela que no dia da agressão um Boletim de Ocorrência foi registrado e um exame de corpo de delito foi realizado. Agora, ela informou que está à procura de um advogado para entrar com o caso na justiça.

“Já sei quem é o agressor e vou entrar (na Justiça), porque se deixar assim, eles vão pensar que sempre poderão bater em mim ou em minhas colegas.”

Recado ao agressor

A voz do desabafo se fez ao fim da entrevista. Ianca mandou um recado ao covarde agressor. “E se fosse uma filha dele ou parente, ele gostaria que ela apanhasse por estar trabalhando? O que ele estava pensando na hora? Se estava nervoso, não precisava ter batido, podia ter conversado, mas não respondido com agressão.”

Ministério Público se manifesta

A pedido da Revista W3, o Ministério Público se manifestou sobre o caso. O promotor de Justiça Marcio Gai Veiga, ressaltou “infelizmente existe na nossa sociedade uma cultura de não respeitar autoridades (nesse caso de trânsito) e de tentar se eximir das responsabilidades por atos errados.”

Ele também comentou sobre a reclamação dos moradores acerca do rotativo. “Não vamos entrar no mérito sobre a questão de poder ou não as ‘amarelinhas’ aplicar multas. Essa questão teria que ser decidida pela justiça. Porém, o estacionamento rotativo municipal decorre do poder de polícia do Município, com o fim principal de garantir a rotatividade de veículos nas vagas. Infelizmente às vezes, o rotativo é utilizado com vistas à arrecadação. Nesse contexto, se a população eventualmente achar que no caso dessa cidade o fim é a arrecadação, deve mobilizar-se para que as autoridades (Executivo e Legislativo) mudem o sistema.”

Prefeitura esclarece dúvidas  sobre o rotativo

O secretário de Planejamento, Everton José da Silva, repudiou a agressão. “Este senhor não precisava ter tomado esta atitude. Mesmo porque Araranguá conta hoje com estacionamento rotativo, em que muitas pessoas vem elogiando. E nada justifica a atitude que ele teve em relação a monitora. A prefeitura repudia qualquer agressão, seja verbal ou física, a estas trabalhadoras.”

A notícia veiculada no Portal W3 causou comoção e ao mesmo tempo um debate. Enquanto a maioria das pessoas defendeu a vítima, outras fizeram questão de apontar que o rotativo não funciona corretamente, ou que as multas aplicadas pelas monitoras são ilegais.

O procurador geral de Araranguá, Thiago Turelly, explicou que o município ganhou recentemente um processo na justiça, indeferindo o pedido do Ministério Público, de que se retirassem todas as multas aplicadas desde a implantação do rotativo e que as notificações não fossem mais realizadas pelas monitoras.

“Eu argumentei na defesa, que Araranguá se espelhou em Corcórdia quando implantou o rotativo, e que a justiça já havia dado ganho de causa a Concórdia pelo mesmo motivo,” apontou Turelly.

O procurador também explica que as multas são constitucionais, porque as amarelinhas não aplicam a multa, e sim, a notificação. Quem transforma a notificação em multa é o Agente de Trânsito do município, que possuí fé pública para isso, Gabriel Gomes. “Se as amarelinhas não pudessem mais notificar, o rotativo perderia sua eficácia e teria que ser extinto,” concluiu Turelly.

Reportagem: Felipe Balthazar

Fotos: David Cardoso