Símbolo do passado, mas vivo no presente. O coreto da biblioteca municipal de Araranguá, há cinquenta anos era mais do que uma simples construção fria de concreto. Ele representava o charme de um domingo a tarde, quando os moradores passeavam pela Praça Hercílio Luz, e na brisa de um belo dia de primavera, os casais subiam as escadas da simples, porém diferenciada construção, para compartilhar uma boa conversa.

A cena descrita acima ainda se mantém viva na memória dos mais saudosistas moradores das Avenidas. Gente como o aposentado Pedro Paulo Moraes, que mesmo meio século depois, ainda guarda boas recordações da antiga edificação. Aos 59 anos ele gasta boa parte de suas manhãs na Praça Hercílio Luz. Na companhia dos velhos amigos, troca informações, debate fatos polêmicos do cotidiano e mantém essa rotina quase todos os dias.

Mais que um ponto de encontro, este grupo de amigos viu uma cidade inteira se transformar. E o Coreto fez parte desta história, no qual eles foram testemunhas vivas da existência dele, e do desmanche, que colocou fim a um dos mais belos monumentos de Araranguá. “Nunca deviam ter destruído o Coreto, ele faz falta. Tiraram um bem histórico e cultural da cidade,” afirmou com ar saudosista o aposentado.

Mas engana-se quem pensa que só casais de namorados se encontravam no Coreto. O local servia para um verdadeiro debate político. Desde as autoridades municipais, às mais importantes do país, o Coreto recebeu diversos discursos, que certamente marcaram a história de Araranguá.

“Getúlio Vargas discursou ali”

Dos políticos famosos que a imponente edificação recebeu, o nome de Getúlio Vargas pode ser considerado o de maior impacto. Um dos presidentes mais notáveis da história do país, discursou no Coreto, em 1943 na Praça Hercílio Luz.

Quem trouxe esta informação à reportagem da Revista W3 foi o aposentado Pedro Paulo. Fato de pouco conhecimento dos moradores, a descrença dos amigos de Pedro era grande quando ele citou tal acontecimento. Mas bastou uma volta na biblioteca, para que todos se rendessem ao conhecimento de um araranguaense conhecedor da história de sua cidade.

Na parede da Biblioteca Luiz Delfino, a foto de Getúlio discursando confirma apenas um fato: o desmanche do Coreto apenas trouxe regresso à cultura de Araranguá.

O Coreto pode voltar

Mais um artefato do passado de Araranguá, pode retornar. Isso porque deu entrada na Câmara de Vereadores o requerimento do vereador Geraldo Mendes (PT) indicando que a Prefeitura de Araranguá providencie a revitalização e restauração do Coreto Municipal.

A proposta já foi aprovada, e segundo o petista, o projeto é que a obra inclua muretas de acordo com o original.  “A intenção é que este espaço seja utilizado como palco fixo para apresentações artísticas e culturais de interesse público,” ressaltou.

O subsecretário de Cultura, Jair Anastácio, revelou à reportagem da W3 que a volta do Coreto é algo pensado desde o início desta gestão. “E o requerimento do vereador vem a reforçar esta importante discussão. Nossa intenção é reformar ou ampliar a biblioteca, e trazer o Coreto de volta é algo que certamente pode entrar neste projeto,” declarou.

Jair é favorável ao projeto. “Eu defendo a reconstrução, acho de grande importância para a cultura da cidade. Pois ele foi desmanchado há tanto tempo, e até hoje continua vivo na memória dos moradores mais antigos,” salientou.

Moradores aprovam

Sejam jovens, ou adultos, a opinião dos moradores é quase  unânime: o Coreto deve voltar. A auxiliar de bibliotecária, Leonida Fregulia De Faveri, 49 anos, concorda com a iniciativa, desde que o projeto seja atualizado. “Se realmente voltar, acredito que um projeto moderno deveria ser feito, talvez com cobertura, e isolamento de vidro, para que os leitores da biblioteca também se beneficiem da obra,” destacou.

Já a acadêmica de direito, Deborah Tournier, 24 anos, discorda do modelo, mas defende a volta do original. Para ela, se for para trazer de volta um monumento do passado, ele precisa ser fiel ao original. “Acho a ideia muito boa, mas se for para acontecer, que seja igual ao que já existiu no passado,” pontuou.

Reportagem: Felipe Balthazar

Fotos: David Cardoso