Vaidosa, alegre, falante, querida, bonita, muito ativa, vibrante e feliz. Esta é Zilma Maria Conceição, uma pessoa que viveu uma experiência que mudou sua vida e a faz exemplo para muitas pessoas.  

Ela conta que estava muito triste, por uma somatória de acontecimentos. "Mesmo assim, sempre trabalhando muito, estava fazendo faculdade, me formei, estava formando os meus dois filhos. Sempre palestrei muito para as pessoas, falando que precisamos ser felizes, esquecer as coisas ruins, as  tristezas, mas no fundo, aquela somatória estava no meu subconsciente me abalando", conta.

Zilma passou por um segundo casamento um pouco problemático, mas não queria que ninguém soubesse. "Eu sou uma pessoa que sei transcender as coisas, portanto, tudo que vem pra mim, vou resolver. Decidi não me abrir com ninguém, não reclamar, agradecer e ver até onde eu iria aguentar. Foi algo muito difícil, um relacionamento complicado, mas ao mesmo tempo, eu me divertia com ele, viajava, acampava. Voltava cansada, trabalhava em um salão de beleza, fui cabeleireira durante 31 anos, depois ia trabalhar na escola, tinha a minha rotina. Nos últimos 10 anos, até eu ter câncer de mama, trabalhei como professora, sou pedagoga. Fui segunda professora na EEB Dolvina Leite de Medeiros, depois na EEB Profº Clovis Goulart, em Araranguá e durante os cinco últimos anos fiquei na EEB Apolonio Ireno Cardoso, em Balneário Arroio do Silva", explica.

Com a rotina, Zilma ficou emocionalmente e fisicamente muito cansada. "Ainda estava casada, comecei a engordar, engordei quase 15 kg e me sentia muito mal. Não estava feliz comigo mesma, com o que eu estava passando. A escola era bom, estar com os alunos era bom, estar no salão também, tenho muitos amigos, mas meu relacionamento e minha alegria estavam se apagando. Em 2013, um dia estava em casa e caí, quebrei a tíbia e a fíbula, fiquei quatro meses de cadeira de rodas. Sempre fui muito ativa, então, passei muito trabalho. Fiquei muito isolada, meus dois filhos tinham as rotinas deles, me viam a noite, mas eu me sentia sozinha durante o dia e por mais que eles percebessem que tinha algo errado, não falavam nada. Eu não me queixo das coisas, eu agradeço sempre. Então, no meu íntimo, eu sabia que ia conseguir resolver", relata.

A professora estava com dores pelo corpo e sentia muita dor na mama direita."Acreditava que era por causa da escola, de empurrar a cadeira de rodas, de usar o computador deitada. Fui ao médico, no mastologista, em Criciúma. Só que como sou muito vaidosa, gosto muito de mim, sou muito falante, cheguei ao consultório, comecei a conversar e ele achou que eu queria uma plástica, porque eu me queixei com ele, conversei como se ele fosse um psicólogo. Marcou para eu voltar depois de 30 dias para marcar a cirurgia plástica, que ele também fazia. Vim pra casa, mas minha dor só aumentava, era aguda, incomodava. Não havia caroço, nódulo, apenas uma dor muito forte", relata.

A descoberta do câncer

"No final de 2013, fiz uma ultrassonografia, uma ecografia, algo que aparecia bem a imagem. Fiz uma core biópsia, avisei ao meu médico, o mastologista e encaminhei os resultados pra ele. No dia 17 de fevereiro, quando fui entrar na escola, chegaram os resultados dos exames, o mastologista me chamou e disse que eu estava com câncer, bem avançado. Ele me indicou um oncologista que me explicou que estava com quase oito centímetros, que não sabiam que tipo era, porque não tem nódulo e mandaram para os EUA para estudarem e nos explicarem, é um caso raríssimo. Fui convidada a ser estudada pelos alunos da Unesc, porque de cada 10 mil mulheres, uma tem este tipo de câncer de mama. Escutei as informações e fui batalhar pela minha vida. Aquilo não era pra mim. A minha sorte que essa minha energia, positividade, essa vontade que tenho de viver, fez com que formasse um corpo de couro, uma cápsula ao redor do câncer. Porque não podia estourar, se não iria para a corrente sanguínea, para o pulmão. Fiz quimioterapia,  fiz radioterapia e uma quadrantectomia, retirei só parte, não precisei tirar a mama inteira".

Zilma tomou corticóide e o cabelo todo caiu. "Tive momentos nas últimas quimios que foram mais difíceis, mas não me deixei abalar. Eu sabia que ia transcender essa. Quando comecei a criar forças meu casamento acabou. No final de 2014, eu estava mais forte e ele muito cansado. Vivemos dez anos e ficamos sem mágoas, cada um ia viver sua vida. Ainda estou em tratamento, são cinco anos. Mas depois da separação, fiquei mais forte, comecei a me sentir melhor como pessoa, a gostar mais de mim, a me cuidar, a dançar. Tudo o que passei foi a maior lição que tive na minha vida, um crescimento e em nenhum momento perdi a alegria. Me amo muito, estou mais madura, mas não perdi meu jeito moleca, me divirto com as pessoas. Fiz curso de parapsicologia, estudo uma doutrina positivista, fiz muitas palestras espirituais, acredito muito em Deus e é assim que levo a vida. Sei o sentido da resiliência e da transcendência. Não absorvo nada de ruim, sei que deixei a janela aberta em um momento da minha vida para o câncer entrar, mas neste momento acordei pra vida. Tinha uma vida antes do câncer, por melhor que tenha sido, depois do câncer amadureci e cresci como pessoa. Tenho 62 anos, mas uma cabeça de 40. Quando fiz 60 anos, estava careca e fiz um book, não tive vergonha. Passei esse momento difícil com a cabeça erguida, recebi muito apoio da família, dos meus dois filhos, dos amigos, muito amor mesmo. A quimioterapia foi tão forte, que entortou meu ventrículo esquerdo, então, tenho 25% menos de bombeamento de sangue do coração para o pulmão, canso rápido, mas isso não me abala, um dia vou fazer a cirurgia, mesmo assim, sou realmente muito feliz", declara.

Fonte: Fotos: Renata Rocha/ arquivo pessoal