Fim dos anos 80. Paralelamente a mudanças político-econômicas no mundo, uma geração se protegia com medo da ameaça misteriosa e quieta que rondava o mundo. Enquanto caiam a União Soviética e o muro de Berlim, tal como Fernando Collor era eleito presidente da república por voto popular, o primeiro desde 1964, os músicos Cazuza e Freddie Mercury também eram derrubados, mas pela AIDS.

A sigla, que traduzida do inglês significa Síndrome da Imunodeficiência Humana, classifica a doença causada pelo Virus da Imunodeficiência Humana (HIV), também transformado da língua britânica para o português. Segundo pesquisadores, a doença surgiu do vírus SIV, presente em chimpanzés e macacos africanos.

Nos seres humanos, o mais provável é que os primeiros casos tenham surgido na década de 1930, já que tribos africanas caçavam e domesticavam os macacos, mas a descoberta veio apenas em 1981. Hoje em dia, segundo dados do Ministério da Saúde, existem 455 mil pessoas em tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids), aproximadamente 40 milhões de pessoas no mundo vivem com o vírus.

Em Araranguá, a enfermeira responsável pelo Serviço de Atendimento Especializado, Tiane Ramos do Canto, diz que, atualmente, existem 341 pacientes em atendimento no sistema público, mas acrescenta que o número real pode ser maior. “Hoje em dia as pessoas podem tratar a AIDS em consultórios privados”, diz a profissional, que também acrescenta a existência de aproximadamente 600 casos na região da Amesc.

De acordo com ela, atualmente os casos só aumentam, e isso pode ser resultado da falta de alarme. A enfermeira relata que, ao fazer acompanhamentos psicológicos pré e pós-exames, são percebidas situações de exposição. “Houve uma banalização e acreditamos que seja porque, antigamente, o tratamento era caro e não tão eficaz, então as mortes eram mais frequentes. Hoje em dia, com os remédios, as pessoas conseguem levar uma vida tranquila, e talvez isso tenha causado um efeito de relaxamento na prevenção”, conscientiza.

Ela complementa falando sobre a situação ser preocupante, já que a demanda por medicamentos só aumenta. “Nós acreditamos que, em alguma hora, o Governo vai acabar não conseguindo mais arcar, pois é muito remédio. Já sofremos cortes em alguns exames, tanto é que o programa de tratamento brasileiro já foi um dos maiores do mundo, e hoje em dia já não é mais. A crise também está chegando no nosso setor”.

Todas as unidades de saúde do município disponibilizam o teste rápido, que fica pronto em tempo inferior a 30 min. Antes e depois do exame, o paciente passa por acompanhamento psicológico. Além do HIV/AIDS, o SAE também fornece suporte às demais DST, Hepatites (B e C) e tuberculose. Mais informações podem ser obtidas pelo número (48) 3524-5216.

A vida após a descoberta

Primeiro o choque e a sensação de morte se aproximando. Depois a conscientização. Conforme João Pedro Soares (nome fictício), de 23 anos, portador do vírus que está em tratamento na SAE há três meses, o sentimento de apreensão é muito grande na hora do teste. “Na hora da descoberta é bem chocante. Você fica naquela angústia esperando o resultado e depois leva um baque. A gente fica achando que vai morrer amanhã”, explicou.

Soares também falou sobre o tabu não ter acompanhado os avanços da medicina. “Hoje em dia o tratamento é muito melhor do que quando a doença foi descoberta, mas o tabu ainda é muito grande”. Diz o jovem, que relatou ter sido tranquilizado após fazer o teste. “A enfermeira que me deu o resultado fez uma comparação muito boa. Ela falou sobre o fato de AIDS e Diabetes serem duas doenças sem cura, mas a primeira ser mais fácil de tratar e conviver. Isso me tranquilizou muito”.

Conforme ele, o tabu atinge também quem descobre que é portador do vírus HIV. “Tem a parte depressiva, que é a de aceitação. Muita gente passa pelo tabu de aceitar ou não a doença. No começo eu fiquei assim, mas me conscientizei e hoje levo uma vida super tranquila”. Perguntado sobre as mudanças na maneira de viver, ele relatou ter passado por amadurecimento. “Vivo normalmente, mas hoje em dia tenho uma visão diferente da vida, com mais responsabilidade”, relata.

E, mesmo com todos os avanços da medicina que fazem os portadores do vírus viverem tranquilamente nos dias de hoje, Soares revela que o maior problema continua sendo o mesmo de anos atrás. “O pior não é o vírus, é o preconceito. É você ser julgado por uma pessoa que não entende exatamente o que você tem”, finaliza.