Você certamente já deve ter ouvido a expressão – “meu irmão de criação” –, em algum lugar, sugerindo que foram criados juntos? Na verdade, não existe “irmão de criação”; ou é irmão ou não o é, ou é filho ou não o é. Nós criamos cachorro, gato, boi, mas nunca gente.

O começo da reportagem pareceu impactante? Esta é a real intenção! O objetivo é mostrar que esta ideia preconceituosa, que vem dos tempos dos coronéis, quando os fazendeiros “pegavam para criar”, sem registrar como filhos, crianças pobres ou negras, unicamente com a intenção de ter, na casa, criados: trabalhadores sem salário, eternamente obrigados a pagar a caridade de terem sido tirados da miséria, até os dias atuais ainda está enraizada na sociedade.

A adoção representa, para muitas crianças e adolescentes, uma nova chance de ser feliz. Impedidos, por diversos motivos, de conviver com a família biológica, eles encontram, na nova família, o carinho e atenção que precisam para crescer e se desenvolver de forma saudável. Para celebrar e fomentar o ato de adotar, o dia 25 de maio foi instituído como o Dia Internacional da Adoção. A ideia principal da data é quebrar o preconceito que sempre acompanha o processo de adoção, em vários aspectos.

Nossa reportagem conversou com uma mãe adotiva. A Jornalista Karem Suyan, da Rádio Araranguá, resumiu em entrevista à Revista W3, o que de fato é a adoção. “Saímos do Fórum com os documentos e uma gestação de tempo indeterminado. Geralmente ela dura muito mais de quarenta semanas. Nosso corpo não se modifica, na maioria das vezes não sabemos se será menina ou menino, que idade terá e quando chegará. Não há exames ou preparação para o que está por vir. Não podemos fazer um chá de bebê ou preparar um enxoval. Quando ele chega, tudo chega junto. É a emoção mais grandiosa da vida de uma pessoa. Ser mãe de um dia para o outro é uma loucura maravilhosa e inexplicável. A espera cheia de incertezas e angústias é totalmente superada com a chegada de nosso filho”, conta.

Karem também sentiu e ainda sente na pele o peso do preconceito. Ela observa que este tipo de gesto é muito maior do que se imagina e quem mais sofre neste caso, são os pais biológicos, principalmente a mãe. “A frase “Como uma mãe tem coragem de dar um filho?” é tão comum quanto injusta. Para uma mãe ficar sem seu filho, seja por qual motivo for, é por algo além de suas possibilidades. E não é justo julgarmos alguém que manteve uma gestação, teve o bebê e oportunizou à uma família ter um filho.

Estas mães, independente do que fizeram ou deixaram de fazer, realizaram o sonho de outras mães. Gratidão seria o sentimento mais correto para dedicar a elas. Numa avaliação mais pragmática, ela deu vida ao bem mais precioso de outra mãe”, afirma.

Karem revela que o preconceito também vem em forma de preocupação das pessoas com o passado da criança. “O entendimento de que uma gestação saudável e uma primeira infância equilibrada afeta a personalidade de um indivíduo é um dos fatores de maior medo e preconceito das pessoas. Entretanto, conheço inúmeros casos de filhos biológicos problemáticos, que provam que ligações sanguíneas não garantem amor, gratidão e respeito”, explica.

Indagada sobre as angústias pós-adoção, agora que já é mamãe do pequeno Ari Bernardo, de 9 anos, Karem é enfática: “Se tenho medos? Sim, que mãe não os tem? Medo de vê-lo sofrer, de precisar de mim e eu não estar lá, da sua saúde, do seu crescimento, de suas escolhas. Tenho os receios normais de toda mãe quando reflete sobre o futuro de seu maior amor, mas quanto ao passado não tenho receio algum. Meu filho tem um passado que pertence a ele e se um dia quiser reconstituí-lo e compreendê-lo estarei ao seu lado, de mãos dadas, como farei em qualquer circunstância que precisar de amor incondicional”, revelou.