Aos 10 anos de idade a adolescente Laiana Pires Cardoso, hoje com 16 anos, conheceu de perto o peso da palavra negligência. Abandonada pela mãe- na época usuária de drogas, a garota que foi criada pelo pai, sofreu maus tratos e precisou encontrar um novo lar. Ela e a irmã- que hoje tem 15 anos, estão abrigadas desde 2011 na Casa Lar Irmã Carmem, e renovam todos os anos, o mesmo pedido de Natal. “Sempre pedi uma família como presente de Natal mas já se passaram quatro anos e o meu pedido até agora não foi atendido. O que me conforta é o apoio e o carinho de pessoas como a tia Nica e o tio João Izé”, conta a menina se referindo aos coordenadores da Casa Lar, um abrigo provisório de proteção integral para crianças e adolescentes, na faixa etária de 0 a 17 anos e 11 meses, de ambos os sexos, encaminhados pelo Conselho Tutelar ou pela Vara da Infância e Juventude.

Em Araranguá, atualmente estão entre adolescentes e crianças, 20 pessoas, os quais se encontram afastados do convívio familiar por meio de medida protetiva (ECA, Art. 101), em situação de abandono ou cujas famílias ou responsáveis encontram-se temporariamente impossibilitados de cumprir sua função de cuidado e proteção. Estes meninos e meninas, permanecem no lar, até que seja viabilizado o retorno ao convívio com a família de origem ou, na sua impossibilidade, encaminhamento para família substituta.

E enquanto o sonho não se realiza, Laiana dá seu próprio jeito de construir um futuro melhor. “Dedicada nos estudos, organizada, responsável, comprometida, cheia de sonhos e uma artista talentosa”, elogia a psicóloga e coordenadora da casa Nica Bonfanti, por quem a adolescente nutre uma profunda admiração. “A tia Nica é minha mãe, minha confidente e quem me ajuda a planejar o futuro. Estou estudando, me dedico às aulas de música, ajudo nas tarefas da casa e se não encontrar uma nova família, pretendo sair daqui para construir uma vida nova”, revela.

Uma triste realidade

Histórias como a de Laiana ilustram com exatidão a realidade do sistema de adoção no país. Para cada criança esperando ser adotada, existem seis pretendentes procurando um filho ou uma filha. Ainda assim, cerca de 5,5 mil crianças e adolescentes ainda esperam em abrigos para serem adotados. Questões, como a demora nos processos judiciais e as restrições feitas pelos candidatos a pais, ajudam a explicar o porquê dessa realidade discrepante. No entanto, para essas crianças cada dia a mais longe de um lar é determinante nas suas vidas. “Com o passar do tempo a gente vai perdendo a esperança de ganhar um novo lar, uma nova família. Entra natal, sai natal, estamos aqui esperando não apenas a solidariedade das pessoas mas encontrar uma família que nos ame de verdade”, conta a garota que fala em nome dos demais colegas de abrigo.

Dados

Segundo Nica, na Casa Lar, 65% dos internos são adolescentes, ou seja possuem mais de 12 anos e dificilmente o destino deles é encontrar um novo lar. A explicação pode estar nos números revelados pelo Conselho Nacional da Justiça-CNJ. “Há uma alta exigência dos que querem adotar, a preferência é por meninas brancas de até três anos de idade”, relata João Izé Rosa, diretor da Casa Lar. Segundo dados do CNJ, 57% dos candidatos à adoção têm restrição à cor da criança e 40% ao sexo, 80% só querem adotar uma criança e menos de 10% aceitam crianças com mais de cinco anos de idade.

“A realidade dos abrigos é outra”, aponta Izé. Entre as crianças aptas para adoção, 90% têm mais de cinco anos, sendo que mais da metade já passou dos 12 anos. Pelos dados do CNJ, é possível constatar ainda que 37% das crianças têm um irmão que, segundo a lei, deve ser adotado junto.