“Meu neto não era gay”

Avó de Erick Kanaan afirma que garoto não era homossexual e fala sobre a dor de perder o neto de apenas 15 anos, assassinado cruelmente durante uma festa em Arroio do Silva.

“Sempre ouvi dizer que coração não dói, mas isso é mentira. Desde a morte do Erick, ele aperta e a vida perdeu o sentido”. A frase comovente é da avó de Erick, Maria Helena Castro Romano, que vive na Praia dos Golfinhos, no Arroio do Silva, junto com a mãe de Erick, o padrasto, os dois irmãos, um filho de 32 anos e o marido. A família, que veio de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, há cerca de um ano para fugir da violência, foi encontrar a crueldade na madrugada de 12 de junho, no Balneário Arroio do Silva.

Segundo investigações da Polícia Civil, na festa, muita droga e álcool foram disponibilizados, e o responsável pela morte de Érick – cujo nome e características não foram revelados, para não prejudicar as investigações – teria ingerido  pontos de ácido – droga atualmente composta principalmente por anfetamina. Outro detalhe sobre o crime é que o assassino apenas lembra o momento em que começou a agredir Erick, ao vê-lo passando mal, na rua, ao lado da casa. Ele não lembra do amigo, que estava com ele, tentar de todas as formas puxá-lo para impedir que cometesse o crime.  Os pontapés, chutes e o estrangulamento que acabou provocando a morte da vítima não são lembrados pelo jovem assassino, que após o crime, teria voltado para a festa. O corpo foi retirado do local posteriormente, pelos dois indivíduos responsáveis pela festa – os dois, maiores de idade - que participaram da reconstituição do crime.

Abalada pelas revelações de que o assassino teria usado como motivo do crime o fato de que Erick, de 15 anos, era homossexual, a avó fica ainda mais revoltada com o crime macabro: “Ele não era um menino à toa, que andava por aí. Ele cantava na igreja (Assembleia de Deus) e era uma pessoa muito boa. Eu sempre cuidava dele, cerquei de todos os lados, guardei, protegi, e isso foi acontecer”, conta a avó, que diz que dormia no mesmo quarto que o menino, e que as noites têm sido difíceis: “Eu nem consigo entrar no quarto. Há um vazio em mim, no meu coração há um oco, uma falta muito grande”, lamenta a mulher, que diz que o argumento do assassino não tem fundamento: “O Erick e o irmão dele (de 13 anos) são muito parecidos com o pai. Eles falam manso, têm gestos delicados, mas nenhum deles é gay. São homens cavalheiros, coisa que muito homem por aí não sabe o que é. O Erick tinha uma namorada, nunca demonstrou nenhum interesse por garotos. O que esse rapaz fez com ele não tem justificativa, foi uma maldade sem fim, mas se o motivo era esse, então ele não poderia ter feito isso com o Erick”, diz a avó, que apesar de evangélica, não condena a orientação sexual. “Mesmo que ele fosse homossexual, o que não é o caso, que direito esse assassino tem de matar alguém só porque não pensa como ele?”, questiona.

Carreira de modelo interrompida

Para a avó, a perda se reflete no futuro brilhante que o neto teria caso não tivesse ido para a festa naquela noite: “Eu recebi várias mensagens no WhatsApp da amiga dele, que afirmava que eles iriam para uma vigília na igreja. Meu neto estudava web design, e neste mês, iria para Porto Alegre, para abraçar a carreira de modelo. Ele era um rapaz alto, bonito, elegante, e tinha tudo para ter uma vida feliz”, garante.

Para a avó, Erick foi alertado dias antes do crime, dentro da igreja, durante o culto: “Veio um pastor de fora, ele estava fazendo revelações, quando chegou para o Erick e alertou para que ele prestasse atenção nas más companhias. Depois, o pastor saiu para fazer outras revelações, mas voltou ao Erick e repetiu o alerta. O Erick não deu bola, mas eu fiquei impressionada. Dias depois, recebemos a trágica notícia de que meu neto foi brutalmente assassinado enquanto estava numa festa onde havia muita droga e más companhias”, relembra.

“Eu sou amiga dele desde que eles vieram morar para cá, há pouco mais de um ano”, afirma a amiga e colega de escola L.S.O., 17, que diz que ela e Erick se viam todos os dias: “Ele era meu confidente e não era gay. Sempre me contava de uma namorada que tinha mais pra lá (aponta para o Sul) e disse que ia me apresentar. Pena que não deu tempo”, afirma L., que assim como a avó, nega a suposta homossexualidade do garoto, que teria motivado sua morte brutal.

Erick declarava amor à uma menina

Para a adolescente e a avó, que mostram o caderno caprichoso do menino, onde traz uma declaração de amor para uma garota chamada Joedna, nada justifica a brutalidade com que Erick foi assassinado: “A gente nunca mais vai esquecer de tudo que aconteceu. A minha amiga, que levou ele para a festa, está muito abalada. Nós estamos abalados. Ninguém vai trazer o Erick de volta, mas o bom trabalho que a polícia vem fazendo com certeza trará a justiça dos homens para este crime. Mesmo porque a Justiça de Deus já está acontecendo agora”, finaliza a amiga do adolescente assassinado.

Homofobia ainda é um assunto evitado no ambiente escolar

Reportagem procurou duas escolas no Arroio, cidade onde Erick Kanaan foi brutalmente assassinado, para saber como as instituições de ensino lidam com questões de gênero

Ser gay é uma escolha? O que diferencia um homossexual de um hetero? Há leis que protegem a orientação sexual de uma pessoa? E a questão religiosa, influencia?

Questões como estas, que fazem refletir a orientação sexual das pessoas e deveriam fazer parte dos debates nas escolas, já que junto com a família, elas representam o âmago da formação do cidadão partícipe e inclusivo, não são debatidas nas escolas como deveriam.

A reportagem do Jornal W3 foi até duas escolas – uma estadual e outra municipal – do Balneário Arroio do Silva, município onde foi brutalmente assassinado o jovem Erick Kanaãn Xavier da Silva, de apenas 15 anos. Segundo o delegado que apura o caso, Jair Pereira Duarte, o assassino confessou que matou o jovem após vários chutes, pontapés e finalmente, estrangulado, porque pensava que Erick era gay, ficando caracterizado o crime de homofobia.

Escola onde Érick estudava diz que não há tabu

A reportagem esteve na escola onde Érick cursava o 7º ano no período vespertino – a EEB Apolônio Ireno Cardoso - para conhecer de perto o que pensam os dirigentes da comunidade escolar sobre o assunto. Na escola, fomos recebidos pela diretora, Renata Joaquim Cadorin, e por sua assessora, Gisele Olivo Fermo.

Para as duas educadoras, os alunos da escola estadual estão abertos para as questões de gênero, e as que envolvem preconceito, como homofobia e misoginia, são frequentemente debatidos: “Na nossa escola, há um grande respeito às diferenças. Sempre estamos conversando sobre o assunto. Na verdade, os professores trabalham a questão como um tema transversal, que envolve o respeito e a felicidade do outro”, afirma Renata, que diz que o tema homofobia ainda não foi alvo de nenhum projeto, mas a escola já trabalhou a consciência negra, o respeito ao próximo, o bullying. Para as educadoras, não há tema proibido na escola, nem pode haver: “Um dos nossos diferenciais é com relação ao respeito. Temos alunos especiais aqui, e os pais sempre elogiam, dizendo que os colegas da escola os acolhem bem. O tema homossexualidade e o preconceito que o envolve nunca foi abordado diretamente, já que aqui na escola, em nenhum momento foi apresentada alguma necessidade sobre o assunto, já que a tolerância e o respeito à orientação sexual de cada um parece algo já apreendido por nossos alunos”, destaca Gisele, a assessora da diretora.

Após conhecer a motivação do crime, a direção com os professores decidiram utilizar o triste incidente para realizar manifestações em prol da paz e contra a violência: “Este será o tema do nosso desfile de Sete de Setembro”, afirma a diretora.

Sobre os colegas de sala de Érick, as duas educadoras afirmam que ainda há muita tristeza entre os alunos, mas os professores estão sempre prontos para uma boa conversa. Entre os colegas mais queridos de sala de aula de Erick, está a adolescente que o levou para a festa na fatídica noite de 11 de junho, um sábado. No dia seguinte, por volta das 11h, o corpo de Erick foi encontrado. O menino estava nu, vestia apenas um par de meias e o corpo estava enrolado na cortina da casa onde a festa, que reuniu mais de 150 jovens e adolescentes, e onde rolou muita droga e bebida alcoólica, acontecia.

Muito chocada, a colega de Erick, que mora na Praia dos Golfinhos, está com dificuldades de frequentar a escola. Embora motivada pelos professores e pela diretoria, ela sofre muito cada vez que entra no prédio: “Estamos tentando mantê-la na escola, mas oferecemos suporte, como encaminhar algumas atividades para a casa dela, para poupá-la de toda essa dor”, lamenta a diretora.

Escola municipal também diz que há o debate

Há alguns quilômetros dali, está a EBM Jardim Atlântico, a única escola municipal que atende a demanda de alunos até o 9º ano. As outras duas escolas municipais têm como público-alvo alunos do fundamental até o 5º ano.

A diretora Rosemary Corrêa Maciel, que está no cargo há pouco mais de seis meses, diz que a morte de Erick chocou não apenas os alunos, mas toda a comunidade do Arroio.

Segundo ela, os educadores trabalham no todo que envolve o respeito e a tolerância, mas o tema específico homofobia e misoginia nunca foram abordados, já que pareceu desnecessário: “Nós vamos trabalhando os assuntos conforme a necessidade. Aqui, atendo muitos casos de indisciplina e evasão escolar, que são mais cotidianos. A homofobia nunca trabalhamos diretamente, porque não é um assunto levantado pelos alunos, não é um tema corriqueiro. Há alunos com essa orientação aqui, mas nenhum deles é alvo de bullying”, afirma a diretora, que diz que diante da revelação de que o crime teve como motivação a homofobia, o assunto precisa ser tratado mais diretamente: “Acredito que tenha que ser tratado não apenas nesta, mas em todas as escolas, e também na sociedade”, reflete. Para ela, mesmo que o Plano Municipal de Educação encare a homofobia como um tema proibido – o que não é o caso, pelo menos no Arroio do Silva – deve ser abordado: “São questões que não têm como esconder, estão aqui, bem visíveis em nossa sociedade. É claro que o educador precisa ter bom senso, não induzindo a um lado ou a outro, mas buscando a reflexão com imparcialidade”, finaliza.

Gerente Regional e Secretária de Educação favoráveis ao debate

A secretária de Educação do Balneário, Silvia Ghelere, diz que não há assunto proibido na escola: “A orientação que damos é que tudo o que passa na sociedade e é percebido, pode e deve ser discutido”, reforça a secretária, que foi diretora por quatro anos, e por 20 anos,  professora na EBM Jardim Atlântico.

“Não há no Plano Estadual de Educação nenhuma restrição à diversidade sexual”, afirma o gerente regional de Educação, professor Nilson Costa, que defende que os professores atuem como mediadores acerca de qualquer assunto que envolva os direitos da pessoa e o respeito aos semelhantes: “Orientamos apenas que esses temas sejam encarados com imparcialidade, para impedir que os professores defendam um ou outro lado”, finaliza.