Alegria, dúvida, saudade, reconhecimento – o turbilhão de emoções está sendo vivido pela família Sá de Souza, de Meleiro, que depois de 64 anos, reencontra o parente perdido, Manoel Sá de Souza, hoje com 82 anos, e que saiu de casa quando ainda era um moleque, aos 17 anos, para tentar uma vida melhor por este Brasil afora.

Na casa de Maria Souza Rocha, 84, a irmã mais velha de Manoel, a reportagem do Jornal W3 conheceu e se emocionou com a história desta família meleirense lutadora, e que apesar da distância e da falta de notícias, jamais desacreditou que o reencontro seria possível.

Ao lado dos irmãos Natalino, 80 e Arlindo, 74, dona Maria conta parte da saga da família Sá de Souza em busca do ente querido desaparecido: “Eu lembro como se fosse hoje. O pai tava no mato derrubando uma caiçara. Ele perguntou pro pai se ele queria ajuda, o pai disse que não, porque ele já tava com a mochila nas costas pra ir embora. Ele foi sorrindo, e nós ficamos chorando a saudade dele”, lembra Maria, puxando na memória.

“Era de manhã bem cedo, ele saiu junto com outros três rapazes aqui de Meleiro. O ano era 1951. Foram a pé até Araranguá, e de lá, pegaram a condução para ir trabalhar no Paraná. Ele disse que mandava carta pra dizer como estava, mas ela só chegou uns quatro anos depois, quando ele pediu os documentos. Nosso pai mandou, e disse a ele que se estivesse sem dinheiro e quisesse voltar, ele mandava. Ele respondeu que recebeu os documentos, que estava bem, e depois nunca mais entrou em contato”, conta o irmão mais novo, Arlindo, que ainda era criança quando tudo aconteceu.

VÁCUO – Por anos a fio, a família buscava notícias de Manoel, sem sucesso. A notícia foi para a TV, no Programa do Ratinho, com a ajuda de Eder Matos, que se envolveu na busca em função da construção da árvore genealógica da família, e o consequente vácuo com relação à história de Manoel.

Mesmo com as buscas, nenhum resultado positivo chegou, o que deixou a matriarca da família, Ana Inês Estácio de Sá de Souza, que morreu uma semana antes de completar 101 anos, muito abalada: “A mãezinha sempre chorava, e sempre pedia a Deus para encontrar o Manoel antes da morte dela. Isso não aconteceu, e ela morreu com a dúvida sobre se nosso irmão ainda vivia ou se já estava morto”, conta Maria, que diz que o pai, Pedro Venâncio de Souza, faleceu há 24 anos ainda perguntando pelo filho desaparecido.

CONTATOS – Há cerca de três meses, parte da família meleirense estava em Balneário Camboriú quando as primeiras pistas sobre Manoel começaram a chegar. Do outro lado do computador, uma moça que se apresentou como Adriana, se apresentou à filha de Arlindo, Anice, dizendo que era filha de Manoel. As duas conversaram, se entenderam, trocaram lembranças, e combinaram o reencontro, que aconteceu na última terça-feira, 26, quando Manoel com quatro de seus 12 filhos desembarcaram no início da noite em Meleiro.

MATANDO A SAUDADE – “Não sabia como iria recebe-lo. Eu era muito próxima a ele, a gente cantava junto na roça, e por anos a fio, cantei sozinha enquanto chorava de saudade dele”, conta, emocionada, Maria, que quase não coube em si com a experiência do reencontro. Hoje, a família reunida mata as saudades, e apresenta os parentes ainda desconhecidos. Manoel contou que depois de sair do Paraná, ele morou em São Paulo até se restabelecer em Rondonópolis, no Mato Grosso. Teve 14 filhos, dois já falecidos, e a esposa já não está presente há 18 anos. Com a idade, a partida dos filhos adultos e a solidão, teve vontade de retornar às origens, e o que encontrou foi uma grande família de braços abertos e muita saudade.

No sábado, 30, a família e membros da comunidade se reúnem para o encontro da família Sá de Souza, que acontece no galpão de Sanga Grande, em Meleiro, a partir das 20h. Convites foram vendidos para o jantar de reencontro, e os ingressos foram esgotados, com a garantia da participação de mais de 300 pessoas, entre amigos e familiares: “Ele prometeu que um dia voltaria. Demorou, mas ele voltou, e por isso, nossa família está completa outra vez”, finaliza Maria.