Redação W3
17/12/2019 19h04 - Atualizado em 17/12/2019 19h51

Igreja de Araranguá promove debate sobre a diversidade dentro do cristianismo

Doutora em Teologia e reverenda há 18 anos pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Lilian Conceição da Silva aborda temas como racismo e homofobia dentro do cristianismo

Igreja de Araranguá promove debate sobre a diversidade dentro do cristianismo

Lilian Conceição da Silva, nordestina, doutora em Teologia, reverenda há 18 anos pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, ativista negra, feminista e militante. Todas essas bandeiras levantadas pela mesma pessoa podem causar algum estranhamento, mas é justamente a quebra deste tabu a missão de Lilian e de seu companheiro, Antônio Amaro do Nascimento Filho.

Juntos, o casal promove o enfrentamento do racismo dentro e fora da igreja, e nesta terça-feira, 17, eles visitam Araranguá para debater questões da diversidade humana no “III Encontro da Diversidade: o amor em todas as cores, raças e crenças”.

Fundada em 25 de julho deste ano - Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a Pastoral Abraço Negro tem buscado a discussão das questões como: racismo, feminismo, diversidade sexual e gênero, dentro do cristianismo.

O Grupo W3 teve a oportunidade de entrevistar Lilian e Antônio, e conhecer o trabalho da pastoral. Lilian destaca como uma de suas abordagens no evangelho, a luta pelo reconhecimento da africanidade na história e, principalmente na religião. “Sou ativista e por ser teóloga feminista e negra, por óbvio, trabalho com uma hermenêutica feminista e negra, com instrumentais de interpretação que nos ajudam a enegrecer a história, por exemplo, de Jesus Cristo e reconhecê-lo como africano. Lembrar as comunidades cristãs que a teologia patriarcal que nós aprendemos, que é europeia e eurocêntrica, nos fez contar uma história de Jesus Cristo embranquecida”, salienta a doutora.

No país, o Rio Grande do Sul é o estado com maior número de ocorrências de injúria racial. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 1.507 casos em 2018 – dados desse ano ainda não foram publicados. O número representa alta de 7,3% em relação ao ano anterior. Já Santa Catarina, é o segundo estado com o maior número de células de grupos neonazistas ativos na internet, são 69. SC fica atrás apenas de São Paulo, onde foram encontradas 99.

Imagem de Jesus Cristo feita por Brenda de 9 anos

Para Lilian, realizar este tipo de ativismo no sul, além de ser necessário, também tem um valor duplamente histórico. “O racismo desumaniza. Ele afirma e impõe na outra pessoa uma não existência. Vir para o sul, justamente sendo este lugar mais inóspito para esse tipo de trabalho, digamos assim, também tem a ver com o fato de expansão. Iniciar o enfrentamento ao racismo aqui é extremamente simbólico, porque a história de nossa igreja no Brasil, nasceu no Rio Grande do Sul”.

Diversidade dentro da igreja

Em 2018, após 21 anos de debate, a Igreja Anglicana no Brasil autorizou a realização do matrimônio homoafetivo. A resolução foi tomada em Brasília em uma assembleia-geral com os representantes da religião pelo país. Mas abordar este tema dentro de muitas igrejas, ainda é desafiador, é o que conta Antônio. “As igrejas aceitam os homossexuais - ou ao menos deveriam, mas elas não fazem isso de maneira aberta. As igrejas ordenam e batizam gays todos os dias, a diferença é que a nossa igreja admite que faz isso”.

“As sagradas escrituras são o ponto de partida para o nosso saber teológico, mas reconhecemos que ela contém a palavra de Deus, mas também é palavra humana. O desafio anglicano, é identificar o que daquelas escritas é mensagem de libertação”, salienta Lilian ao ser questionada sobre os casos de intolerância contra homossexuais praticados com justificativa cristã. “Nós cremos em um Deus responsável por toda essa criação e nós devemos celebrá-la. A orientação sexual não torna esse alguém mais ou menos importante, todos somos filhos e filhas. Enquanto houver alguém cuja a humanidade é negada, nós enquanto igreja, devemos nos posicionar explicitamente para afirmar que isso não vem de Deus".

Promovido pela Abraço Negro Pastoral Afro e Anglicanxs+ e pela Pastoral da Diversidade, o debate ocorre hoje à noite, às 20h, na Paróquia Cristo Redentor Episcopal Anglicana do Brasil, localizada na Av. XV de Novembro, 1620, no Centro de Araranguá em frente à escola Castro Alves.   

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