“Já tentei de tudo: cinema, natureza, praia, mas vejo que eles ficam agonizando para chegar em casa e se “atualizar” na frente da telinha. Em uma situação em que estávamos na casa de um parente, acabei dando o meu celular para minha filha para poder faze-la mais “feliz” naquele momento. Agora vejo que em muitos casos acabei errando”. O desabafo sincero e cheio de aflição é do pai de dois adolescentes, de nove e 12 anos de idade, que prefere não se identificar, mas que relatou sua preocupação com o vício dos filhos em tecnologia.

O relato dele é apenas um no meio de tantos outros pais aflitos, com o que deveria ser apenas uma distração dos filhos, mas acaba se transformando em um vício. “Venho percebendo há algum tempo a necessidade compulsiva do meu filho estar na frente do vídeo game horas sem parar. Um tormento visível quando fica fora de alcance de celulares e computadores. Temos um vídeo game, um notebook (coletivo) e um celular para as crianças utilizarem por segurança quando vão para a escola ou saem de casa por alguma atividade”, afirma.

O pai afirma ainda que, na maioria das vezes, perde a atenção dos filhos para os jogos ou para o celular. “Confesso que já não consigo mais dominar tanta tecnologia dispostas para os meus filhos. A vida está cada vez mais corrida e nessas horas lembro que tenho que dar atenção para eles, mas quando chego em casa eles já estão dominados pelos aparelhos eletrônicos. Ainda mais agora nas férias”, destaca.

E ele sabe que não está sozinho nesta angústia. Outros pais compartilham a mesma preocupação. “Já me vi sem saber o que fazer vária vezes mas olho pro lado e vejo crianças em restaurantes, mercados e até na igreja esperando a missa acabar com um tablet na mão. Peço que esse desabafo possa alertar vários pais e que eu tenha força para corrigir um erro que possa ser meu e de minha esposa nesses anos todos. Olho todos os dias para muitas crianças parecidas com meus filhos dependentes de uma tecnologia que as vezes parece tão atrasada”, diz.

Reflexo no desenvolvimento

Coordenador de uma escolinha de futebol há mais de dois anos, o professor Joni Luiz Dos Santos, convive diariamente com crianças e adolescentes – neste período, mais de 700 alunos já passaram pelo projeto – e, cada vez mais, ele percebe os reflexos negativos dos jogos eletrônicos no desenvolvimento deles.  “Eles não conseguem focar em mais de uma coisa ao mesmo tempo, por exemplo. Como nos jogos eletrônicos eles precisam estar conectados em uma coisa só, quando em outra situação, precisam tomar várias decisões em uma oportunidade, simplesmente não conseguem. Sem contar os problemas de relacionamento com os professores e colegas e a própria aptidão física, que está cada vez mais comprometida”, destaca.

O professor destaca a preocupação com o fato de os jovens estarem cada vez mais isolados. “Com as facilidades de hoje, eles acabam percebendo que é melhor estar dentro de casa, no ar condicionado, jogando vídeo game ou até mesmo no celular, sem ninguém lhes dando ordem, do que estar na rua, jogando, interagindo com outras crianças, e precisando ter disciplina para conquistar resultados. O que percebemos é uma geração cada vez mais isolada e individualista. Para se ter uma noção, hoje é muito difícil que adolescentes acima dos 12 anos se mantenham no esporte, porque geralmente nesta fase, eles ganham mais autonomia dos pais e acabam optando por se afastar”, afirma.

Joni reconhece o lado positivo desta interação das crianças com a tecnologia – que começa cada vez mais cedo. “Hoje, bebês de um ano já têm seu próprio tablet para assistir o desenho da Galinha Pintadinha, por exemplo. Vejo isso como uma coisa positiva, porque este contato dente a refletir em um futuro muito mais tecnológico do que a era que vivemos hoje, isso pode refletir, inclusive, na economia local, promovendo ideias e estratégias que desenvolvam este segmento na nossa região, estado e país. Porém, como tudo na vida, é preciso que haja equilíbrio e é aí que está a dificuldade”, reitera.

Diante da realidade, Joni procura manter um contato direto com os pais. Nas reuniões que realiza periodicamente, o vício em tecnologia é tema constante. “Conversamos bastante sobre isto e a maioria dos pais está realmente pedindo socorro, porque já não sabe mais o que fazer, como equilibrar essa relação dos filhos com as tecnologias. Eles percebem que os filhos estão se isolando e acabam se sentindo culpados, porque muitas vezes foram os próprios pais que influenciaram a criança a utilizar o celular, o tablet ou o vídeo game”.

Obesidade

Outra questão que Joni relata é a obesidade. Crianças de sete, oito anos já têm percentual de gordura muito alto e índices de flexibilidade, agilidade e velocidade, aparecem muito abaixo do considerado normal. “Esta é mais uma consequência que o excesso de tecnologia traz. As crianças e os jovens estão cada vez menos praticando atividades físicas, brincando na rua, tendo contato com o ambiente externo e isto também reflete na saúde”, finaliza.