O que um município tem de melhor? Sem dúvidas, as pessoas que nele vivem. São elas que compõem cada capítulo da história de uma cidade. E é por isso que a matéria de abertura do jornal comemorativo aos 70 anos de Turvo e dos 70 anos de história do Hospital São Sebastião é com um personagem importante para ambos os capítulos.

Aos 84 anos de idade, seu Aroldo Duarte Schmitz guarda em sua memória – e em seu coração – boa parte das histórias já vivenciadas no município e no hospital e é ele quem empresta suas lembranças para homenagear esta data tão especial.

Nascido em 12 de julho de 1934, em Jaguaruna, ele foi para Laguna em março de 1946, para estudar o chamado ‘curso ginasial’. Ele recorda que era muito dedicado. “Estudava mais de 10 horas por dia, era muito responsável com os estudos, tanto que aos 11 anos, fui aprovado e concluí o curso”.

Aos 15 anos, Aroldo se muda para Porto Alegre, onde morava na mesma pensão que o irmão. É na capital gaúcha que ele dá início ao Curso Científico. Mas é em 1954 que ele dá início à realização do maior sonho da sua vida. Desde a infância ele sonhava em ser médico e aos 20 anos, começa o curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Das 699 vagas, apenas 100 foram aprovados e seu Aroldo ficou na 13ª colocação. “A vontade de ser médico surgiu na infância, desde os oito anos, quando ajudava minha irmã e meu cunhado com a farmácia que eram proprietários – inclusive, era a única da região naquela época”, afirma.

Aos 25 anos, ele se formou na faculdade e deu início à carreira de médico. Trabalhou como médico substituto em cidades como Orleans, Lauro Müller, Jacinto Machado até recebeu a notícia de que o médico que atuava em Turvo queria se aposentar. “Vim de peito aberto. Aqui eu fiz minha vida, tenho laços de amizade, quero viver e morrer aqui”, destaca.

Seu amor pelo município é tão grande que em 2016, ele lançou seu primeiro livro “Histórias Compartilhadas”, e em muitas delas, a cidade de Turvo aparece como protagonista. E lá que ele conta as principais lembranças de sua existência. “No município, ele atuou como único médico durante dez anos, dedicando-se à profissão até se aposentar, o que aconteceu em 2013. Durante o período em que trabalhou como médico no Hospital São Sebastião, realizou mais de 11 mil partos e inúmeras cirurgias, enfrentando as mais adversas situações sem ter por perto um colega médico para ajudar, mas com a pronta dedicação das religiosas que ainda são responsáveis pela gestão do hospital”.

Entre as adversidades citadas na introdução de seu livro, uma delas – talvez a maior – era a falta de sangue nos estoques do hospital. “Tínhamos um caderno com o grupo sanguíneo de vários moradores do município. Quando alguém necessitava de uma transfusão, fazíamos tipagem e mandávamos buscar o doador, já cadastrado, em casa. Fazíamos a prova cruzada e, se compatível, retirávamos o sangue - na época, num frasco de vidro que já vinha com vácuo. Relacionamos um grupo de doadores universais que eram verdadeiros coringas – e entre eles, estava eu. Poucas vezes foi necessário ter que sair do ato cirúrgico, retirar meu sangue para doar ao paciente e retornar à cirurgia”, relata em seu livro.

Relação de amor

Em seu livro, muitas são as vezes em que seu Aroldo se refere ao município e ao hospital com muito carinho. Há um capítulo destinado a toda a história do hospital. Em quatro páginas, ele resume os principais acontecimentos envolvendo a criação do mesmo. “O hospital teve suas instalações inauguradas em 20 de março de 1949. Uma data inesquecível, com dois fatos marcantes para a comunidade: inauguração do hospital e instalação do município, criado por Lei Estadual, em 30 de dezembro de 1948”, recorda.

A cidade também tem um capítulo especial no livro. É ali que fala de seu amor pelas terras turvenses. E foi no município que ele constituiu sua família e também onde contribuiu com a comunidade – além do trabalho como médico, seu Aroldo ainda atuou de maneira incansável diante dos movimentos sociais. Em reconhecimento de sua contribuição à sociedade, o médico recebeu, das mãos do deputado Estadual José Milton Scheffer, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa – a comenda do Legislativo, concedida a pessoas ou entidades que se destacam por suas ações em benefício de sua comunidade.