Redação W3
04/10/2019 14h01 - Atualizado em 04/10/2019 14h06

O Oscar de 1963 e como a maior premiação do cinema se tornou uma questão de sobrevivência

Blog Resenha em Pauta – Tiago Almeida

É quase óbvio falarmos aqui, mas, o Oscar perdeu sua força com o passar dos anos, apesar disso, ainda é o prêmio mais prestigiado da sétima arte sem sombra de dúvidas, o que vou falar aqui, é como esse prêmio, no auge de sua proeminência e poder, transformou atores e atrizes (principalmente elas) em ferrenhos duelistas por estatuetas, apenas pelo fato do prêmio estender suas carreiras por mais alguns bons anos após o avanço da idade.

Outro fato que nem precisaria estar citando aqui, é de como a indústria cinematográfica tratou suas atrizes após passarem dos 40 anos. Todas eram sumariamente excluídas de papeis de destaque, dando lugares a atrizes mais jovens, muitas vezes, com metade ou nenhum talento, coisa que raramente acontecia com os homens, que com o passar dos anos, resistiam com carreiras sólidas e ofertas de papéis rotineiras.

Mas o que o Oscar tem a ver com tudo isso? TUDO! Ganhar um prêmio dessa magnitude mesmo depois dos 50 anos era sinônimo de renovação de carreira e a esperança de receber mais propostas para continuar trabalhando, mas, não haveriam indicações para mulheres de idade se não existissem papeis para isso correto?

Foi exatamente o que aconteceu com Joan Crawford e Bette Davis, lendas da era de ouro do cinema americano que após chegarem ao cinquentenário, viram suas carreiras afundarem diante de seus olhos com a falta de propostas e papéis de relevância no cenário hollywoodiano. Foi quando em 1962 ambas estrelaram o hoje clássico cult “O que terá acontecido a Baby Jane?” longa que contava com as duas como atrizes principais, interpretando irmãs também em decadência na carreira artística e que acabam enlouquecendo com a convivência no passar dos anos.

Bette Davis e Joan Crawford nos bastidores de “O que terá acontecido a Baby Jane?”.

O filme estava sendo cotado em todas as premiações daquele ano, mas a guerra entre as protagonistas só se daria com a divulgação das candidatas a melhor atriz no Oscar de 1963. Apenas Bette Davis foi indicada por interpretar Baby Jane, Joan, foi completamente esnobada pela academia apesar de seu papel na trama ter tanta importância quanto o de Bette.

Atrelado ao fato de que Crawford não sabia quando seria chamada novamente para trabalhar, e quiçá ser indicada novamente ao Oscar, a atriz começou uma cruzada contra a colega de elenco para que a mesma não ganhasse a estatueta no dia da cerimônia. A inimizade das duas já era lendária no início da década de 60 e ganhou ainda mais repercussão após a academia divulgar as indicadas ao prêmio de 1963.

Ajudada por Hedda Hopper, a mais famosa e influente colunista de fofocas da época, Joan ligou, enviou cartas e se encontrou com os votantes da academia para fazer campanha para as outras atrizes indicadas e ainda fez questão de se encontrar com o presidente do Oscar na época, Wendell Corey, para pedir para apresentar um dos dois mais importantes prêmios da noite, Melhor filme ou Melhor diretor, Joan acabou ficando com o prêmio de Melhor Diretor que seria dado a David Lean, pelo estrondoso Lawrence da Arábia, que também ganhou como melhor filme na mesma noite.

Joan Crawford entregando o prêmio de melhor diretor para David Lean, por Lawrence da Arábia.

Além disso, Joan entrou em contato com as outras indicadas, Lee Remick (Vício maldito) Geraldine Page (Doce pássaro da juventude) e Anne Bancroft (O Milagre de Anne Sullivan) para que ela recebesse a estatueta em seu nome, caso alguma delas não pudesse participar da premiação. Notoriamente ela não falou com Bette Davis e nem com Katherine Hepburn que também era a indicada da noite por “Longa jornada noite adentro” pelo fato da atriz já viver reclusa em sua casa na época e nunca ter aparecido no Oscar até o momento, o que reduziria suas chances de levar o prêmio naquele ano.

Davis ainda disse em entrevistas na época:

“Quando a senhorita Crawford não foi indicada, ela imediatamente reservou seu lugar no Oscar como apresentadora do prêmio de Melhor Diretor. Depois ela voou para Nova Iorque e deliberadamente fez campanha contra mim. Ela disse para as pessoas não votarem em mim. Ela também ligou para outras indicadas e disse a elas que iria receber a estatueta se elas não estivessem presentes na cerimônia.”

Em uma noite reservada para momentos icônicos como a indicação do filme brasileiro O Pagador de Promessas como melhor filme estrangeiro e Patty Duke se tornando a atriz mais jovem a receber uma estatueta por seu papel secundário em “O Milagre de Anne Sullivan”, Joan Crawford apareceu com vestido, joias e cabelo prateados, fazendo um pequeno protesto indo vestida de “Oscar Prata”, logo após apresentar sua categoria, a atriz voltou pra coxia para esperar ansiosamente pela próxima que seria a de melhor atriz.

Maximilian Schell foi o apresentador da categoria que daria a Anne Bancroft, que obviamente não estava na cerimônia, o prêmio mais esperado da noite e consigo a chance de Crawford segurar a estatueta pela última vez, mesmo que não tivesse ganhado por seu mérito artístico. Não se sabe qual foi a reação de Bette Davis na hora que Joan subiu ao palco, mas, Richard Dunlap, diretor da premiação naquela noite, disse que seria cruel demais capturar um momento tão dramático.

Gregory Peck, Joan Crawford, Patty Duke e Ed Bgley, posando para fotos com “suas” estatuetas.

Após o ocorrido, a cena de Joan recebendo o Oscar em nome de Bancroft repercutiu por meses nos jornais e revistas, não impedindo obviamente o declínio da carreira da atriz, que apesar da atitude ser considerada por muitos como mesquinha, foi aplaudida por uma parcela da classe de Hollywood que sabia que era “matar ou morrer” para se manter na ativa.

Joan, que faleceu em 1977 e Bette em 1989 jamais seriam indicadas novamente a qualquer prêmio de relevância, mas, lutaram ativamente até o fim de suas carreiras por dignidade e por trabalho, algo que não deveria ser tão difícil para atrizes de sua estirpe, mas que se tornou questão de sobrevivência para tantas mulheres maduras na indústria cinematográfica.

Joan e Bette em seus últimos filmes, Joan em “Trog” de 1970 e Bette em “A Madrasta” de 1989 poucos meses antes de morrer.

Fonte: Tiago Almeida

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