Rosane Machado
06/05/2019 14h26

A DOR DO OUTRO TAMBÉM É DOR

Coluna Rosane, 06/05/2019

Na semana que passou, mais uma pessoa tirou sua própria vida. Mais uma pessoa abandonou seus sonhos, sua família, sua profissão... mais uma pessoa se foi. Coincidentemente eu chegava ao local no exato momento. Doeu-me ouvir as suposições, as conjecturas a cerca da morte.

Doeu-me porque basta a pessoa ser bonita pra que seja menosprezada a sua dor e questionados os seus motivos. Não estou dando respaldo para o que essa moça fez. Não a conhecia, ou talvez a conhecesse já que é de minha mesma profissão. Talvez tenhamos cruzado o caminho uma da outra um dia no Fórum, na OAB... sabe-se lá.

Aí fico pensando: como devemos passar por pessoas que sofrem em silêncio, mas nosso próprio umbigo, nossa vida atribulada, atarefada e, talvez, até vazia de tanto ter o que fazer, transforma os que cruzam conosco em seres invisíveis. Pessoas invisíveis, dores invisíveis...

Hoje um 'oi, tudo bem? Como vão as coisas?' pode ser vital pra muita gente. Um simples olhar direto nos olhos, um sorriso verdadeiro, uns minutinhos pra se fazer uma fofoquinha inocente, reclamar do tempo, pode ser absurdamente importante.

A dor do outro não é menor porque é do outro. A dor do outro tem relevância porque não somos uma ilha, porque fazemos parte de uma grande família que convive embaixo do mesmo céu.

Quando quem tira a vida é rico, muitos se admiram porque a pessoa tinha posses e quem tem posses não tem o direito de sofrer. Já sabemos de cor que quem é rico de material, pode ser bem pobre em seu espiritual, em seu emocional... Afinal, ninguém está dentro dos sapatos do outro pra saber onde dói o seu calo.

O individualismo impera. As pessoas não se encontram mais como antes. As redes sociais encurtam distâncias, porém não aproximam realmente os seres. Ter-se cinco mil amigos no Facebook a ponto de termos de abrir mais um perfil ou criar uma fanpage, não quer dizer que a pessoa seja feliz, rodeada de ombros que podem estar disponíveis quando se vê tudo nublado.

As curtidas não se transformam em abraços físicos. E um 'amei' ou uma gargalhada virtual não valem tanto quanto um beijo, um afago nos cabelos. A vida urge contato físico. A vida urge calor. A vida urge proximidade.

Nunca fomos tão sós nesta imensa rede, neste mundo cibernético diante de nossos olhos, na ponta de nossos dedos... Nunca fomos tão solitários entrando na onda do 'sextou' somente pra se dizer, na realidade: 'gente, eu estou aqui!'

Quanta piada, quanto link engraçado, esconde um coração angustiado, uma crise de ansiedade, síndrome do pânico... E não devemos nos importar com o outro porque amanhã pode ser nós. Temos que nos importar verdadeiramente, pois sofrer não é bonito pra ninguém. Abreviar-se uma existência, independentemente de idade é por demais triste.

Urge prestarmos mais atenção no outro.

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