Léia Batista
01/04/2019 09h49 - Atualizado em 01/04/2019 14h06

Onde foi que errei?

Coluna Léia Batista, 01/04/2019

Onde foi que errei?

A ordem é natural, a mulher engravida, gesta por nove meses um feto que começa a amar assim que recebe o resultado positivo do laboratório e, instintivamente, sabe que esse sentimento será perpetuado por toda a existência e, quem sabe, além dela.

Como num conto de fadas, a vida adquire um sentido mágico. A mulher dá a luz a um novo ser que vem ao mundo, supostamente, para ser amado. O bebê nasce saudável, lindo, e vai crescendo dia após dia, sendo motivado pelas expectativas da mãe, do pai, da família, da sociedade. Começa a andar, a falar, entra na escolinha, ganha amiguinhos, peso, altura, inteligência, e a família inteira acompanha com orgulho o desenvolvimento do rebento.

Tudo corre às mil maravilhas, até que, como nos contos de fadas, acontece um imprevisto para acabar com a magia que, supunha-se, seria eterna. A criança, que já não é mais uma criança, revela ser gay.

Um silêncio ensurdecedor nocauteia os pais. A mãe se desespera. Onde foi que eu errei? Como irei contar à família? O pai desaba. Onde foi que eu errei? O que os meus amigos vão dizer? A criança crescida, que aprendeu a buscar apoio naqueles seres que a acompanharam até ali, culpa-se por causar tal infelicidade, por ter nascido diferente. O silêncio dá lugar ao vazio que engole a família feliz, tal qual os monstros dos contos de mentira.

O que saiu errado? É a primeira pergunta que vem à mente dois pais, como se fossem portadores de uma anomalia genética, ao terem gerado um ser diferente da maioria. Onde foi que eu errei?, perguntam-se como criadores de cavalos de raça, ao se deparar com o potrinho de pelos opacos e franzino porte. Será que mimei demais, pergunta-se a mãe, comparando sua cria imperfeita com os exemplares filhotes das amigas.

Uma falha genética, uma aberração, um caso de falta de palmadas e de vergonha na cara, é isso o que muitos pais e familiares pensam dos nascidos homossexuais. Aonde foi parar a promessa de amor incondicional e eterno feita no dia do recebimento do resultado positivo?, penso eu sobre esses pais e familiares de homossexuais.

A questão aqui já não é mais embasar com teorias ou defender com palavras o direito aos diferentes tipos de orientação sexual. Por mais que uma fatia da sociedade queira pautar a tese do macho e fêmea, masculino e feminino, através de desígnios sagrados criados e adaptados à vontade dos homens de carne e osso e moral duvidosa, algo muito importante foi conquistado e não há como retroceder: o direito de viver e existir socialmente da forma que se desejar.

A questão aqui é sobre o quanto você mulher e você homem estão preparados para trazer um ser ao mundo, sem ter a certeza de que ele suprirá as suas expectativas. É sobre este prisma que deve recair o olhar da sociedade formal constituída por casais heterossexuais: vocês estão preparados para gerar seres que virão ao mundo com direito a descobrir com qual gênero se identificam? Estão preparados para amá-los e apoiá-los independentemente de que venham a ser diferentes? Estão dispostos a ver suas expectativas frustradas?

Já não se trata somente de fazer o pré-natal, escolher enxoval, e frequentar o cursinho de pais e padrinhos aos moldes das sociedades normalizadas e perfeitas. A pergunta é: vocês estão preparados para conceber e amar um filho gay? Nenhum movimento conservador, nenhum déspota preconceituoso, nenhum grupo de repressão fará retroceder a ordem universal da liberdade dos seres. Os homossexuais fazem parte do sistema social, assim como os heterossexuais, e cada vez mais iremos conviver com essa diversidade nas ruas, no trabalho, nas escolas, nos cinemas, dentro de nossas casas como parte de nossas famílias. Não há ordem que determine o retrocesso da evolução dos seres e a diversidade de gêneros.

Portanto, se você ainda se encontra na posição de considerar anormal aquele que não é igual a você, repense as suas expectativas com relação ao papel de mãe e pai neste planeta. O mundo não precisa de mais órfãos de pais vivos! Se não conseguir amar, proteger e educar um filho homossexual, desista do conto dos pais felizes para sempre, você não foi feito para isso. A anomalia, agora, é você.

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