Quincas Avelino
20/02/2019 15h09 - Atualizado em 20/02/2019 15h46

A fundação de uma coluna

Coluna Quincas, 20/02/2019

Nesse novo espaço proponho encontros e sirvo das provocações que foram feitas durante o tempo que sento na estação de passagens (Araranguá). Entender o que as pessoas tiram do alfabeto para ler o mundo. Na série de 5 entrevistas disponho a primeira, o Mito fundador:

Dentre as inúmeras e intrigantes figuras que conheci a beira da BR 101, após a Ponte sobre o Rio Araranguá, uma se apresentou mais do que curiosa. Um guri viajando de bicicleta - sem rumo - sem lenço, sem documento e sem dinheiro. Acoplou uma estante no triciclo que pedalava junto a uma barraca, um saco de dormir, algumas poucas roupas; carregando livros dizia que era essa a solução: - ler.

Em especial uma das características do rapaz me chamou a atenção, ele tinha uma rapidez em organizar e desorganizar a ordem das palavras, criando com isso um ambiente poético, independente da formalidade do lugar. Um exemplo disso foi quando ele organizou um Sarau de Final de Ano na Zona de Prostituição na cidade de São Sebastião (litoral do Estado de São Paulo). Os bêbados, as cafetinas, cafetões e prostitutas declamaram lembranças e até improvisaram com o desapego que outrora o menino apresentava ao abrir a estante da bicicleta e oferecer Cecilia Meireles, Herman Hess, Adelia Prado, Lygia Telles, Pedro Nava, Mário de Andrade (...).

Além da capacidade de encontrar portas a serem abertas ele tinha um grande acervo de perguntas que soltava conforme as pessoas o questionavam a respeito da vida que levava. A primeira que me fez: "Se a liberdade te encontrasse o que ela te perguntaria?" ou ainda tirando a sujeira da unha depois de um dia inteiro pedalando no sol: " Onde você guarda seus sonhos?". Quando via as pessoas sem jeito ou percebendo que estavam de "saias curtas" com as questões que apresentava dizia que não necessitava resposta. Que aquilo servia como convite a pensar e a parar.

Não passei tanto tempo com o jovem, mas contou de seus encontros favoritos: com os andarilhos. E que não jogou fora seus cadernos de anotações porque neles poderia consultar o nome de todos os andarilhos que tinha esbarrado nas estradas, as reações aos escutarem os poemas que lia sem a menor pretensão.

Com entusiasmo lia Manoel de Barros aos caminhantes; pelo simples fato de acreditar que os andarilhos deveriam saber que serviram de inspiração aos poetas. Esses "agentes de trânsito" que incentivam as calmas, o tempo e as caminhadas. Assim, na despedida declamou um poema que me grudou:

Olhem os passarinhos, que não se preocupam com o alimento, não precisam semear, nem de colher, ou de armazenar comida, pois o vosso Pai celestial é quem os sustenta. E para ele vocês têm muito mais valor do que os passarinhos. As suas preocupações poderão por acaso acrescentar um só momento ao tempo da tua vida?

Saúde, Pública, aos Quixotes que o mundo produz!

Fonte: FOTO: Tadeu Vilani / Diário Gaúcho

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