O vídeo de um menino querendo trocar o tênis por comida viralizou nas redes sociais nos últimos dois dias. A imagem foi gravada pela missionária, Liliane de Jesus, que por coincidência também compartilhou a história do menino Ruan, que ganhou grande destaque no ano passado.

João Vitor, o menino do vídeo, tem apenas 9 anos de idade. Sem o conhecimento da mãe, ele saiu pela vizinhança tentando trocar um par de tênis - presente de aniversário dado pela irmã no ano passado, por comida. Ao se comover com a atitude do menino, Liliane compartilhou o vídeo em suas redes sociais e não demorou muito para que a postagem se popularizasse.

O grupo W3 visitou a família na manhã desta quarta-feira, 4, e conversou com a mãe do menino, Fabiana Abreu. A situação passa longe de ser ideal, são 12 pessoas morando em uma casa de apenas três quartos. Além João Vitor, Fabiana é mãe de outros seis filhos, quatro deles são pequenos e as idades variam entre 9 e 4 anos. Também moram com ela dois netos, um de 7 e o outro de apenas um ano de idade e uma sobrinha de 7 anos.

A família de João Vitor é de Viamão, município localizado no Rio Grande do Sul. Fabiana conta que vieram para cá, pois seu marido recebeu uma proposta de emprego como mestre de obras, mas acabou não dando certo. Desde então, já fazem cinco meses que eles residem em Balneário Arroio do Silva.

A renda da família varia, é o que conta Fabiana. A mulher recebe uma pensão por viuvez de R$ 700, as crianças recebem um valor de R$ 309 do programa Bolsa Família e o marido é autônomo, trabalha com reciclagem e como pedreiro quando surge trabalho.

Doações  

Desde que o vídeo foi postado, dezenas de pessoas se solidarizaram e têm visitado a família levando as doações. A casa do menino se encontra repleta de alimentos, o que é ótimo, mas isso preocupa Fabiana. “Eu fico muito grata com toda essa repercussão e todas essas pessoas comovidas com o meu menino, mas é muita coisa. Eu não tenho onde armazenar tudo, principalmente as coisas que precisam ser refrigeradas. Eu vou tentar distribuir estas doações, porque aqui existem diversas pessoas carentes e que precisam de ajuda como nós”, salienta.

A casa onde a família mora é de aluguel, o proprietário do imóvel vendeu a casa e o prazo para a Fabiana sair terminou no dia 2 deste mês. “Eu paguei o calção para o proprietário e nossa intenção era ficar aqui apor um ano. Após 17 dias morando na casa, ele acabou vendendo a casa e nós não temos para onde ir. Eu conheço alguns direitos meus, eu tenho sete crianças e sei que tenho até 90 dias para deixar o imóvel”.

A família recebeu a doação de um terreno, o avô do menino Ruan, cedeu parte do pátio para a família construir uma casa. “Eu estou tentando reunir o material para a construção dessa casa, é minha única esperança. A gente vem juntando algumas madeiras descartadas de obras e eu vou levantar um barraquinho de qualquer jeito”.

Apelo

Fabiana aproveitou o espaço e a repercussão do caso, para fazer um apelo. “Antes de tudo, a gente precisa trabalhar, preciso de um emprego. Eu não tenho oportunidade, tenho o ensino médio completo, tenho experiência em telemarketing, caixa operadora, auxiliar de saúde, falta só o último módulo para eu me formar no técnico de enfermagem. Desde que cheguei tenho deixado currículo em vários lugares, mas para a minha idade, 43 anos, está difícil. Eles dão preferência por pessoas mais jovem", desabafa.   

CRAS esclarece o caso

A reportagem também visitou o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do Arroio do Silva, para saber a real situação da família. “Nós recebemos este caso hoje, pela manhã, através das redes sociais. O Conselho Tutelar já esteve ontem lá para fazer a primeira verificação. O que nós notamos, é que a família não estava sendo assistida pelo município porque não procurou o CRAS ou porque não tinha orientação suficiente sobre os seus direitos”, explicou o Romalino Manuel Rescarolli Junior, psicólogo do Centro.

De sete crianças, apenas duas estão indo à escola, Fabiana disse que procurou por vagas quando chegou ao município, mas não teve sucesso. A mulher também conta que havia ido ao CRAS para atualizar a situação com o Bolsa Família, mas fez críticas ao funcionamento do órgão. “Eles pedem por muitos documentos e nada é feito aqui, tudo precisa ser feito em Araranguá. Muitas vezes a gente precisa escolher entre uma passagem e um litro de leite e a gente acaba se acomodando”, disse a mãe.

O CRAS garantiu a matrícula das crianças no próximo ano letivo. Ao entrar em contato com a escola onde as duas crianças de Fabiana estão matriculadas, a instituição confirmou que ela é “uma mãe zelosa e que as crianças nunca apresentaram sinal de vulnerabilidade social e por isso ninguém imaginou que a família passasse por dificuldade”, disse o psicólogo.

Agora, a família de João Vitor passa a fazer parte do cadastro e será atendida pela assistência social do município.

Para quem quiser ajudar a família, o contato de Fabiana é: (51) 9 9500-3705.

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